2013-03-23 Um pouco de Serra Amarela - Nos malhões do Germil

 

De madrugada choveu copiosamente, o que não augurava nada de bom para esta nossa jornada na Serra Amarela.
Um pouco contrafeitos, lá aparecemos às 08:00 no café Vitral, conforme previsto na convocatória. Aos poucos começaram a aparecer os “valentes” que desafiaram os prognósticos meteorológicos, que previam uma manhã chuvosa, com melhorias para a parte da tarde.

Se alguns falharam, dando o dito por não dito, amedrontados com a chuva e as previsões, mesmo assim foram muitos os “corajosos” que se nos juntaram, para mais esta atividade na Serra Amarela, mais propriamente na vertente sul, junto à bela aldeia de montanha de Germil.

Um destaque para a presença dos dois companheiros da GARV - Grupo de Andainas Rías Baixas, que saudamos de um modo especial.

O trajeto para Germil foi feito por Aboim, levando-nos até Santo António de Mixões da Serra, que nos apareceu envolto em densa neblina, mal permitindo divisar o seu curioso santuário, em que se celebra a tradicional bênção anual do gado. Um pouco adiante, descemos para Gemil, que surge ao longe, no meio do nada, nas pedregosas franjas da Serra Amarela, com seu aspeto imponente e ameaçador, envolta em densas nuvens de borrasca.

Chegados a Germil, o lugar da concentração foi no adro da capela da aldeia, onde estacionamos as viaturas. Trocadas as saudações com os companheiros que entretanto tinham já chegado, a chuva fez nova aparição, comprometendo desde o início a intenção de fazer o percurso inicialmente previsto.

As nuvens baixas e carregadas de chuva, proporcionaram-nos registo dum belo arco-íris, mas escondiam quase completamente as vertentes da Amarela, desaconselhando qualquer aventura nessas paragens, pelo que o Miguel optou por fazer apenas o trilho do Germil, esquecendo a parte alta do percurso, mais distante da aldeia.

Depois de alguma hesitação iniciamos a subida pelo meio das casas e espigueiros da aldeia, encontrando vários dos seus habitantes a fazer a manutenção da calçada rural de acesso à serra, limpando-o da vegetação e refazendo os drenos.

Conforme nos confidenciaram, é esta a altura do ano em que dividem esta tarefa comunitária de limpeza dos caminhos, sendo contudo já muito poucos os que comparecem a este dever cívico, já que são muitos os velhos que já não aguentam os trabalhos e poucos os novos que não emigraram, procurando na “estranja” trabalho e melhor sorte do que a possível neste nosso pobre Portugal, tão castigado pela generalizada incompetência e corrupção de governantes e políticos profissionais.

Chegados à calçada do Eido, nova paragem. Havia que tomar a difícil decisão de fazer o percurso inicialmente previsto, ou apenas o percurso do Germil.

Decisão difícil, já que o tempo tinha melhorado bastante, mas mesmo assim, ainda havia risco de chuva e a serra continuava envolta em sombrias nuvens, desaconselhando qualquer incursão nessas paragens.

A custo, convencemos o Miguel a fazer a volta grande, pelo que continuamos a ascensão, sempre pela calçada rural, contornando a serra a até ao seu términus, continuando depois a “corta mato”, subindo até aos “malhões” do Germil, situados na encosta da Pedra da Janela.

E lá estavam eles - os Malhões, imponentes marcos, singelos abrigos dos pastores, que aproveitavam a sua parca proteção, para se aconchegarem da chuva, frio e vento, tão comuns nestas desabrigadas paragens.

Tirada a foto de grupo, fomos até à borda da corga apreciar as vistas para a cercana Ermida e a sua branda de Bilhares, tão próxima e tão longe, devido às acidentadas vertentes serranas.

O regresso foi feito a meia encosta, apanhando um trilho que nos levou para norte, passando pela Chã do Cubato, descendo a encosta da Travessa até atingir a estrada de alcatrão, onde abrigados do vento junto de uma presa de àgua foi feito o reabastecimento. Feito este, subimos até à casa florestal de Pena do Eido. A partir dai, e um pouco mais à frente, retomamos o percurso do Germil, descendo a Encosta de Chã de Arcas até bem perto do rio do Germil.

Mesmo à nossa frente surge o Fojo de Germil, imponente construção em forma de V, com os seus altos muros em fase de reconstrução, o que se louva, já que é plenamente merecida a recuperação destas seculares armadilhas do lobo, importantes testemunhos da luta do homem com a fera, que lhe fazia perigar o sustento.

Como diz Irina Bukova “O património de uma nação é essencial para que os cidadãos possam preservar a sua identidade e autoestima, beneficiem da sua diversidade e da sua história e construam, por si mesmos, um futuro melhor”

A subida para Germil é agora sempre feita junto ao rio, ladeando os campos agrícolas murados, agora totalmente improdutivos e abandonados. São os testemunhos do abandono que a emigração e a quebra de rendimento agricultura impõem.

Foi bastante dura a subida final para Germil, mas lá fomos pelos caminhos atapetados de folhas e muros forrados de verdes musgos, que delimitam os campos abandonados, aqui e ali com vestígios de ruínas de socalcos e latadas tristemente abandonadas.

Chegados a Germil, fomos visitar a eira comunitária, com um interessante conjunto de espigueiros em pedra, em mau estado de conservação, e interessantes pedras furadas, bases de desaparecidos canastros de vara.

Depois de mais umas fotos e muita proza, finalizamos o percurso no cruzeiro, onde nos esperavam os companheiros que optaram por encurtar o percurso, regressando pela estrada.

A paragem final de reabastecimento foi no 27.

 

José Almeida

Vianatrilhos

Anterior