AFIFE
Viver o presente no encontro com o passado
2010-02-13
Itinerário: Castro de Sto António, Cruzeiro do Vale, Castro do Cutro, Cividade de Afife/Âncora, Forte de Cam, Mamoa da Eireira, Monte de Sto António
Castro do Monte de Santo António
Em 1930, Abel Viana, tendo conhecimento que uns operários que trabalhavam no Monte de Santo António tinham descoberto, dentro de uma construção circular, alguns objectos líticos, deslocou-se ao local, podendo confirmar o sucedido.
Foi no flanco Sul, quando se procedia ao arranjo para o patamar virado ao “mastro” que os trabalhadores exumaram, do interior das ruínas de uma habitação castreja, vário material lítico, nomeadamente, uma “pedra esteliforme de simetria quase perfeita”, que, segundo aquele investigador, poderá pertencer a um período que medeia entre o Neolítico e a II Idade do Ferro.
Mais tarde, por volta de 1948 / 49, quando se procedia à abertura da actual estrada para o Monte de Santo António, no flanco Norte / Poente, foram postos a descoberto: uma habitação circular ainda bem conservada, “casa dos mouros,”onde eram bem visíveis as ombreiras e padieira de granito e que hoje estão desaparecidas; vestígios de outras construções similares; partes de uma muralha; mós de granito — algumas formando parem —, várias pedras aparelhadas e uma lápide de granito de forma aproximadamente rectangular, com uma inscrição em uma das faces. Os caracteres não estão todos, pois a pedra encontra-se partida em um dos lados.
Foi um achado extremamente importante, visto a inscrição credibilizar ter sido este castro bastante romanizado. Pelo “concheiro” que encontrámos encostado à parte exterior da parede da ruína da referida casa, e que ainda hoje é um testemunho castrejo, inclinamo-nos a concluir ter sido o mar um dos principais recursos de subsistência daquela gente.
Génese do primitivo núcleo urbano que viria a originar a moderna paróquia de Santa Cristina de Afife, hoje, não é fácil apercebermo-nos das dimensões que atingira este castro, pois a configuração do local tem sofrido grandes alterações, ao longo dos anos.O castro incorporava, além do monte de Santo António actual, uma área que podemos limitar, sem grande margem de erro, pelo Caminho de Agrela, Largo das Vendas, Cruzeiro, Caminho de Paranhos até à Fonte Nova, Caminho do Oiteiro, Casa do Povo, Fonte da Poça, estrada do Monte de Santo António e Caminho de Santo António. A actual igreja paroquial está edificada, por assim dizer, no coração do castro.
É possível que fosse levantada em algum local de culto pagão pré-existente, não obstante os castrejos não adorarem deuses pessoais, adorando, simplesmente, as propriedades divinas relativas à vida natural e social ligadas às suas necessidades; por isso é natural que as suas divindades não tivessem nomes especiais.
O aparecimento na parte mais elevada do castro de restos de uma sepultura cavada na rocha aponta para que esse local estivesse ocupado ainda em épocas altimediévicas. Assim, somos levados a concluir que o castro conhecido por Monte de Santo António nuca deixou de estar habitado até aos nossos dias.
Cruzeiro do Vale e Cruzeiro de S.João
A igreja de Afife que recebeu a sua mais profunda reforma de que há conhecimento, em 1687, era membro de uma confraria que congregava irmãos de várias paróquias — a Confraria de Santo Isidoro — cujo padroeiro se venera na capela do mesmo nome, junto ao mar, a Norte de Vila Praia de Âncora, já na freguesia de Moledo.
De acordo com os estatutos da Confraria, entre as várias manifestações de carácter religioso, obrigavam-se os irmãos dessas paróquias a realizarem, todos os anos, umas procissões, conhecidas por clamores, a vários locais de culto, em datas estabelecidas, onde os irmãos de cada paróquia deviam ir com a cruz da sua freguesia e o respectivo pároco. Aqueles clamores, realizados em dias certos, tiveram início, segundo a tradição, no séc.XIV em ano de grande estiagem, para implorarem, através da penitência e da prece, por tempo mais bonançoso.
Eram vários os locais onde se realizavam as referidas procissões. Um dos clamores efectuava-se ao mosteiro S. João de Cabanas, no dia de S. João Baptista, 24 de Junho, da parte de tarde.
Primitivamente, partia do Cruzeiro da Matança, limite de Afife com Âncora, para o convento de Cabanas. Mais tarde, passou a ter início no sítio do Cruzeiro do Vale — local um pouco mais a Sul que o primitivo — onde existem dois cruzeiros.
Um, conhecido por cruzeiro de S. João, foi roubado em meados de Junho de 1995, ficando somente a base, onde se encontram esculpidos uma cruz e a data 1776, que serve de marco divisório entre as freguesias de Afife e Âncora; o outro, a poucos metros do anterior, mais recente e conhecido por cruzeiro do Vale já foi várias vezes vandalizado, a última das quais em finais de Setembro de 1999.
Cútro ou Crasto de Mouros
Várias vezes referido a partir do séc. XVIII com o nome de “Crasto de Mouros”, tem havido, contudo, grande confusão quanto à sua correcta localização. Sem dúvida trata-se da estação arqueológica hoje praticamente conhecida por Cútro.
Em 1959, quando da 1ª intervenção arqueológica na Cividade (7 a 26 de Setembro), dirigida pelo Prof. Christopher Hawkes, da universidade de Oxford, tendo-se deslocado àquele local, entre 7 e 9 de Abril, para uma prévia prospecção, este investigador observara que o pequeno castro do Cútro era fortificado, indiciando vestígios de ocupação pré - romana.Assim, destacou para o local um grupo de trabalho, sob a direcção da sua colaboradora Dra. Maire de Paor, da universidade de Dublin..
Da intervenção foi posto a descoberto um pano de muralha que era constituído por duas paredes com enchimento de terra no seu interior, tudo com cerca de 4 metros de largura, sendo a exterior mais larga do que a interior. A seguir a esta, outra parede em posição paralela à anterior, algo mais larga que ela, a uma distância de cerca de 3 metros. A cerca de 2,5 metros desta última um terceiro muro encurvado, sugerindo tratar-se de muro de habitação, com uma fiada de pedras ao longo e postas em posição vertical, assemelhando-se a um estreito canal, para onde poderiam correr águas pluviais. Do local foram recolhidos fragmentos de cerâmica e de telhas, assim como algum material lítico.
Este castro de dimensões diminutas, comparativamente com o da Cividade — que lhe fica a Noroeste e umas centenas de metros mais abaixo — ia, pela parte Poente, um pouco além da actual estrada florestal, onde se podiam perceber, ainda há pouco tempo, alguns vestígios.
Pequeno e fortificado onde se detectaram vestígios defensivos e uma ocupação nitidamente pré-romana seria da mesma época da Cividade ou anterior a esta. Pela falta de vestígios nitidamente de influência romana poderá admitir-se ser de maior antiguidade que a Cividade, podendo esta ter surgido como resultado de um excesso de população no Cútro e, ao mesmo tempo, na procura de um lugar menos inóspito, incentivado por uma melhoria nas condições de segurança que novas técnicas defensivas e o aparecimento de armas mais eficazes proporcionavam.
Poderá pôr-se, também a hipótese de o castro do Cútro ter sido mandado edificar pelos romanos para depósito dos minérios que na Chão de Afife e imediações apareciam com abundância, nomeadamente o estanho, para servir de habitação a quem trabalhava nas minas ou ainda ser uma espécie de quartel para instalar os guardas que controlavam as minas e vigiavam os mineiros. Todavia, a todas estas interrogações, apenas podemos responder com conjecturas.
No entanto, pelo espólio exumado — como uma “pedra antropomórfica” que Abel Viana supõe ser do período final da Idade do Bronze — parecem-nos improváveis as conjecturas anteriormente enunciadas, estando mais inclinados a admitir ter sido o Cútro o precursor do castro da Cividade, portanto, anterior a ele.
Cividade
As primeiras notícias deste castro de que temos conhecimento remontam a 1706, na Corografia Portuguesa do Pe. Carvalho da Costa, não obstante o topónimo Cividade nos aparecer já em 1548, no tombo da Igreja de Santa Cristina de Afife.
Todavia, foi o ilustre arqueólogo Martins Sarmento que indo passar a época de veraneio, habitualmente, para Gontinhães, hoje Vila Praia de Âncora, fez algumas digressões por terras do vale do Âncora, cabendo-lhe as mais antigas referências colhidas no local, de que temos conhecimento, sobre o castro da Cividade. Martins Sarmento não fez escavações na Cividade, limitando-se a sondar o local.
Dos contactos que teve com proprietários de bouças na área do castro conseguiu, em 1879, recolher algumas pedras, mós e uma padieira e ombreira de uma porta castreja ornamentada com motivos geométricos conhecidos por entrançados que levou para Guimarães, onde se encontra no Museu da Sociedade Martins Sarmento.
Porém, só em 1959, entre 7 e 26 de Setembro, se fez a 1ª intervenção na Cividade orientada por um arqueólogo. Esteve a cargo, como já o dissemos, do Prof. Cristopher Hawkes da universidade de Oxford.
O castro da Cividade era constituído por um recinto de forma aproximadamente circular com cerca de 300 metros na direcção Nordeste / Sudoeste, 250 metros na direcção Noroeste / Sudeste e circundado por três fiadas de muralhas mais ou menos concêntricas, com algumas casas entre elas.
Revelou, a partir do estudo da estratigrafia, 6 ou 7 níveis de ocupação. O espólio recolhido era essencialmente constituído por cerâmica lisa e ornamentada, algumas pedras aparelhadas e raros objectos metálicos — uma moeda romana de bronze, indecifrável devido ao seu estado de corrosão, “um aro de bronze de aplicação desconhecida,” um pendente em forma de sanguessuga, uma conta de vidro azul, assim como alguns restos de escórias de ferro. Os objectos metálicos encontrados foram considerados como sendo da Idade do Ferro.
A partir das valas abertas no local foram postos a descoberto alguns troços das três muralhas, assim como de várias casas circulares.
Em 1960 tem lugar nova intervenção — a segunda —, desta feita orientada por Abel Viana que decorreu de 1 a 25 de Agosto. Esta segunda intervenção continuou a escavação, servindo-se de algum trabalho já realizado na primeira, pondo a descoberto mais casas circulares, algumas entre muralhas. Na parte central de uma delas foi encontrada uma coluna que teria servido como base do prumo que sustentaria o telhado.
A coluna a que já fizemos referência denota a influência romana no castro, embora até este momento não possamos dizer se teria sido muito ou pouco profunda.
Após esta segunda intervenção, em 1960, ficou a Cividade entregue à destruição que as vicissitudes do tempo tornam possível, com o mato e outra vegetação a crescer por toda a parte, até ao período 1978 / 1984, quando o Prof. Doutor Armando Coelho Ferreira da Silva lhe dedica novamente atenção. Este investigador apresentou plantas, bastante pormenorizadas, de alguns sectores da Cividade por ele estudados, através das quais se pode fazer alguma ideia da organização urbana e vida doméstica no castro. Com este estudo mais minucioso do local pôde o referido investigador detectar “vestígios de actividades domésticas e artesanais, relacionadas com moagem, fiação e tecelagem”, assim como “abundante escória de ferro, o fragmento de um cadinho com restos de fundição de bronze e uma agulha deste metal,” possíveis testemunhos de alguma oficina de metalurgia e fundição.
Segundo o mesmo arqueólogo as habitações não se dispunham ao acaso, apontando, antes, para a existência de um plano ordenador que indiciava pertencer o conjunto habitacional a”três núcleos familiares individualizados.” Em todos eles se acharam vestígios de pequenos recintos funerários — possivelmente destinados a prática de incineração —, forno de cozer o pão, fonte de chafurdo, assim como vários vestígios de habituais actividades domésticas.
Local de enterramento dos mortos.Pelos dados existentes de acordo com a arqueologia, tudo aponta para se aceitar que num período mais recuado as práticas funerárias castrejas eram constituídas pelo rito de incineração, e as cinzas depositadas no interior das habitações em pequenos poços, sendo, progressivamente, colocadas em recintos similares fora das habitações. Com o andar dos tempos, cada núcleo urbano — e sabemos que a Cividade era constituída pelo menos por três — passou a ter o seu “cemitério”, isto é, o seu próprio recinto funerário. Mas à medida que se ia caminhando para a Idade Média a prática de incineração dava lugar à de inumação.
Se tomarmos como regra o observado em alguns castros como, por exemplo, Vilar de Mouros, Seixas, Gondarém ou Santa Tecla o cemitério ficaria localizado fora do castro a uma certa distância, numa pequena elevação ou zona plana sobranceira à povoação.
Seguindo o mesmo raciocínio em relação à Cividade, o sítio hoje conhecido por “Osseira”, nas imediações deste castro, reúne todas as características para poder ter sido um cemitério castrejo o que, de algum modo, vem reforçar a hipótese daquele oppidum ainda estar ocupado na Alta Idade Média.
Relacionado com “Osseira”poderá estar o sítio conhecido por “Matança”, terreno plano nas imediações daquele e sobranceiro à Cividade.
O aparecimento em tempos passados de eventuais ossadas no local teria levado o povo a pensar em alguma batalha que tivesse provocado grande matança entre os contendores — hipótese que nos parece de todo inverosímil. Pelo contrário, pelas características dos locais referidos e respectivos topónimos (Osseira e Matança), tudo leva a crer estarem relacionados com o recinto funerário da Cividade ou até com o do primitivo núcleo populacional da Portela, em período altimediévico.
Período de Ocupação
Não se pode fornecer uma data, nem aproximada, para a fundação da Cividade. No entanto, pelas características do povoado e, tendo em conta situações similares, estamos convencidos que já deveria existir por volta de 1200 anos a. C. De acordo com fragmentos de cerâmica recolhidos no local, moedas encontradas, alterações nas plantas circulares das habitações e na construção de casas de planta rectangular, tudo aponta para que a Cividade fosse habitada até época tardia. Sabe-se, contudo, que em 49 – 48 a. C. se encontrava ocupada e que a sua ocupação seria ainda praticamente total, por volta de 41 – 45 d. C.
Durante o grande período de paz que se viveu, desde os anos 70 até cerca de 192, os castrejos da Cividade devem ter ensaiado o parcial e progressivo abandono do castro mas, a instabilidade causada pelos bárbaros em algumas fronteiras do Império, no séc.III, terá refreado essa tendência, levando as populações, pelo contrário, a reforçarem as suas defesas.
Por tudo o que fica dito estamos em crer que o castro da Cividade seria definitivamente abandonado já em época Altimedievica avançada e que os sítios conhecidos por “Osseira” e “Matança” representam argumentos indiciadores disso mesmo.
Cruzeiro da Matança
Local onde existiu um cruzeiro, marco divisório entre as freguesias de Afife e Âncora e donde saía, primitivamente, o clamor para o mosteiro de Cabanas
Cruzeiro de Lavoradas
Cruzeiro que a jusante da estrada medieval de Viana para Caminha facejava com ela.
Forte de Cam
Pequena fortificação, localizada já na freguesia de Âncora e mandada construir por D. Pedro II, entre 1699 e 1702, para defender a costa portuguesa de qualquer investida espanhola, durante a Guerra da Restauração
Mamoa de Eireira
A Mamoa de Eireira é, sem dúvida, a manifestação mais significativa do Neolítico em Afife. Não faz parte, por assim dizer, de nenhum núcleo megalítico conhecido, muito embora, não muito distante se encontrem outros monumentos similares: dólmen da Barrosa, em Vila Praia de Âncora, mamoa do Santo de Vile, em Vile, e mamoa da Aspra, em Âncora. Apresenta a referida mamoa um diâmetro de 28 metros e, o que resta, é constituído por 16 esteios que“definem um monumento indiferenciado em forma de “V”.
Uma das características mais importantes em termos de tipologia megalítica, é o facto de os esteios considerados de “corredor” serem da mesma altura dos que constituem a câmara! Cremos tratar-se de uma disposição bastante rara no nosso país.”
Estrada Velha
Antiga estrada medieval que atravessando Afife fazia a ligação entre Viana da Foz do Lima e Caminha.
Caminho do Pincho
No sítio do Pincho existe uma fonte de água puríssima muito recomendada.
Caminho do Lagido
Troço da antiga Estrada Medieval
Capela de S. António
Veio substituir uma pequena ermida da mesma invocação, quando a Igreja Paroquial sofreu a primeira grande reforma e ampliação de que há conhecimento, em 1687, aproveitando-se alguns materiais interessantes da Igreja que devido às obras já lá não podiam ser aplicados. A ampliação da pequena ermida teria tido por objectivo, não só o aproveitamento dos materiais sobrantes da primitiva igreja, como também para dar apoio religioso à população, enquanto as obras da igreja paroquial estavam em curso.
António Rodrigues França Amaral
Afife ,2 de Fevereiro de 2010