MARCHA NA SERRA D'ARGA

caminhos com história

2010-01-09

 

 

  CLASSIFICAÇÃO DUM POVOADO MILENAR NO CIMO DA SERRA DE ARGA

Perdido nesse belíssimo santuário da natureza que é a Serra de Arga, existe um povoado antiquíssimo que importa e urge classificar. Tudo indica tratar-se dum património arqueológico de grande valor. Não se sabe a idade nem a sua origem, mas parece anterior a qualquer aglomerado populacional das fraldas da Serra de Arga.

A sua situado geográfica é privilegiadíssima. O local, virado a sul, com uma vista deslumbrante sobre o vale do Âncora e sobre o mar, apresenta condições verdadeiramente singulares. O terreno quase plano, fértil, e banhado por um riacho, a partir do qual se forma o rio que vai desaguar em Vila Praia de Âncora.

Está dividido em diversas parcelas delimitadas com paredes e marcos graníticos, junto das quais existem pelo menos umas 20 a 30 casas redondas de pedra, cobertas com lajes, muito próximas ou ligadas umas às outras. Não apresentam, contudo, quaisquer vestígios de a pedra ter sido trabalhada ou aparelhada com ferramentas.

Numa primeira impressão, mas que apenas cabe aos especialistas avaliar, parece tratar-se não de um povoado de carácter sazonal, mas permanente. Rodeado por três cotos que protege aquele espaço dos rigores do Inverno e dos ventos norte, o local apresenta condições ideais de pastoreio e permanência para pessoas e gado ao longo de todo o ano.

Alias, ainda hoje, curiosamente, pode ver-se como este é o sítio escolhido pelo gado para pastar, pernoitar e proteger-se do frio e do sol estival. E para lá que vão as suas preferências, em particular, agora, os cavalos selvagens, que tanta graça emprestam aquela serra paradisíaca.

Sente-se nesse local uma mística, um encanto e uma paz difíceis de descrever. É um espaço que apela e convida a contemplação, ao enlevo. Não admira, pois, que as gentes de então o tivessem escolhido para viver e proteger-se.

Num destes sábados, logo de manhã cedo, um grupo de Amigos da Serra de Arga, vindos dos mais diversos lugares do concelho de Viana, rumou a este local para pôr a descoberto este povoado completamente escondido por giestas de grande porte, nascidas há cerca de 25 anos, após o grande incêndio que transformou a Serra d'Arga num archote dantesco.

A alegria e a satisfação que reinava no grupo era permanente e contagiante. Liderados por Manuel Paula, em representação da Associação Cultural e Desportiva Montariense, um apaixonado pela sua terra e pela natureza, a quem a Montaria já tanto deve, ao seu abnegado esforço pela preservação do seu patri¬m6nio histórico e cultural, os trabalhos decorreram com grande entusiasmo. Cada um fazia o seu achado, e logo chamava os outros para que fossem ver: "Venham ver esta! Olhem que perfeita!".

Era o encontro do presente com o passado, onde se perscrutava o sagrado das nossas origens. Alguns, de imaginação mais fértil e cómica, chegaram a encenar o quotidiano daquelas gentes. Trabalhou-se e suou-se muito. Mas o que se recebeu foi muito mais do que aquilo que cada um deu. Era essa a imagem gratificante que todos mostravam, ao fim da tarde, e depois de terem partilhado as suas merendas. Todos prometeram continuar.

Venham mais! Há lugar para todos. Fica aqui o apelo.

A limpeza desta estância só foi possível graças ao uso de motosserras, hábil e profissionalmente manejadas por Fernando Pereirinha e Meireles, amigos da Serra de Arga. Os trabalhos irão prosseguir até que tudo fique a descoberto, a fim de este património ser definitivamente classificado.

Manuel da Tianarosa
In Aurora do Lima
04/08/2000
 

 

Serra D’Arga


Com suas lendas, penedos de virgindade, espólio arqueológico
e fontes de águas minerais é zona de grande interesse.

“Abaixa-te, oh! Serra D’Arga
Q’eu quero ver S. Lourenço
Quero ver o meu amor
Acenar-me com o lenço”

 

Os montes, em sucessão levantam-se entre os rios Lima e Minho. É a Serra D’Arga, componente do maciço que parte dos Pirenéus e avança por Astúrias e Galiza, numa sucessão contínua de montanhas cortadas por ribeiras e rios. A Serra D’Arga guarda muitos segredos que há mais de 2500 anos vai deixando desvendar. Não obstante, ainda vai reservando muitas surpresas.

Poder-se-à associar, etimologicamente a palavra “Arga” a “Agra” que significa rude, áspera, selvagem… O que é verdade é que nunca se conseguiu definir, concerteza, o seu significado! Os romanos chamavam-lhe Monte Medúlio, onde, diz a lenda que:

Numa manhã de Primavera, quando o Egica e a Eulália fugiram a cavalo para longe de Ervígio, pai de Eulália e rei visigodo em Espanha, pois este queria que sua filha casasse com Ramismundo, um guerreiro temido. Os dois fugitivos foram ter ao monte Medúlio, nome dado pelos romanos à Serra D’Arga, ao Mosteiro Máximo, onde chegaram já com os últimos raios de sol a desaparecerem no horizonte. Aí foram recebidos por um velho amigo do pai de Egíca, que após breve meditação, os casou secretamente. No dia seguinte, mandou-os á presença de uma dama que vivia num castelo próximo e prometeu enviar um mensageiro a Ervígio, anunciando-lhe que tinha feito o casamento entre Egíca e sua filha, para ver qual a sua reacção.
Passados alguns tempos, o monge foi ao castelo dar ao casal a resposta de Ervígio, o qual lhes perdoaria e os receberia se, dentro de um ano, lhe dessem um filho varão, nomeando Egíca, seu sucessor.
Porém, antes de partirem, baptizaram a Serra, que então achavam maravilhosa, com o nome de Serra D’Arga, porque Eulália achava-a parecida com uma enorme agra, isto é um grande campo fértil e cultivado.

Também, conhecida por montanha santa ou montanha mágica, devido às numerosas casas de oração eremitérios que lá existiram, como as Capelas de devoção de S. João D’Arga e Santa Justa esta local de um curioso foco de religiosidade popular, desta feita em romaria exclusivamente feminina que ocorre a 19 de Julho.
Santa Justa protege as mulheres na esterilidade, nas desavenças conjugais e em todo um sem fim de doenças femininas. Este culto devidamente cristianizado apenas continua ancestrais rituais pagão de fecundidade – durante a procissão, solta-se casais de pombas… ofertam-se dádivas incontornavelmente brancas, sejam frangas, pombas, moedas ou estrigas de linho. Isto com a condição de tanto o galispo, como a franga não hão-de ter conhecido galadura.

Também a lenda de Santo Aginha, e do Santo do Chocalho relacionam-se, julga-se, com a presença de leprosos nesta região – constituem aspectos marcantes. Aginha, era o salteador com a cabeça a prémio, regenerado pelas lúcidas palavras do frade que queria assassinar. Morto pelo aldeão que socorrera em momento difícil, na calçada do Outeiro, em plena serra, foi o seu corpo encontrado, semanas depois, sem se decompor. O receio do povo por aquele homem-fera virou à devoção. A sua imagem venera-se na paroquial de Arga de S. João, na tribuna, do lado da Epistola (no frontispício vê-se a data de 1720).

E é ainda aqui, esta serra de lendas e de muitas histórias que está situado o santuário a Nossa Senhora do Minho. Um local onde todos os anos no dia 1 de Julho, se cumpre uma peregrinação. São muitos os peregrinos que neste dia, alguns de véspera, sobem a serra para ir ao santuário da Senhora. Peregrinação que é feita, a pé terminando no airoso santuário, no alto da montanha, a 801 m. acima do Atlântico, e de onde se pode ver uma das mais esplendorosas paisagens de todo o Minho.

Reparem que a Nossa Senhora do Minho está vestida com fato de lavradeira de Minhota!

Também de acordo com a tradição popular é a Serra D’Arga, privilegiada pela qualidade das suas águas. Existem diversas nascentes dispersas pela serra, tendo algumas delas propriedades terapêuticas importantes, devido à sua leveza, frescura e pureza. Desde tempos imemoriais que os nativos as sabem aproveitar sabiamente para matar a sede e se curarem das doenças do estômago, intestinos e rins.

Situada na vertente oriental da serra, nas imediações do sítio denominado por Bezerreiras, de acesso até á pouco difícil e onde também nasce o rio Âncora, encontramos a conhecida Fonte da Urze. Trata-se de uma água muito procurada pela sua pureza e propriedades terapêuticas digestivas.

Algumas destas fontes arrastam atrás de si superstições curiosas como por exemplo a seguinte:

“No lugar de Transâncora, na Montaria, há uma fonte, cuja água jorra por duas bicas. Rapariga que beba por uma bica sem beber da outra, verá crescer-lhe mais o seio desse lado”.

Provavelmente esta superstição estará associada às propriedades galactógeneas desta água, tal como acontece com a nascente existente nas imediações da Capela de S. Mamede, conhecida por Fonte do Leite, no lugar de Transâncora, a que fiz referência.


Recolha de texto extraída de:
“Mosaicos da Serra D’Arga – Pe. Artur Coutinho”
“Horácio Faria – Estudos regionais”
“http:/feitoriaportuguesa.blogspot.com”