Travessia Portela do Homem - Pitões das Júnias

2004-10-02

Da Portela do Homem a Pitões de Júnias

 

Manhã cedo e noite cerrada, a custo lá me levantei pelas cinco horas, para me juntar a um reduzido grupo predisposto a caminhar...

0 dia rompia, quando nos abeirámos da vila do Gerês. Atravessámos a mata da Albergaria, passámos por Leonte e, finalmente, chegámos à Portela do Homem; porém, antes, à nossa direita, está o estradão que nos leva aos Carris. Aqui foi a concentração de todos os caminheiros, divididos em duas secções, uma com destino a Pitões das Júnias, outra até aos Carris. Com o empedrado e a subida pela frente, durante três horas, o nosso grupo, mais lento, Lá foi andando.

Ao longo da margem esquerda do rio Homem que desce de cascata em cascata, íamos subindo de pedra em pedra, era só cascalho! Dizia Miguel Torga: "Tranquei

as portas à memória e, pela margem do rio, subi os Carris. Uma multidão minava as fragas à procura de volfrâmio, por conta da guerra e de quem a fazia. Teixos

e carvalhos centenários acompanharam-me quase todo o caminho. Só desistiram quando me aproximei do cume da montanha, onde a vida, já sem raízes, tenta levantar voo."

Entre os contrafortes da montanha, alcantilados e inacessíveis, do gosto das águias, cabras e pouco mais, a panorâmica era arrasadora!

Aí pelo meio do percurso, o grupo mais atrasado, do qual fazia parte o Parente, o Alcides e respectivas companheiras, Abreu, Rui Vieira, Filipe, Josué e o subscritor destas letras, começa a separar-se, de forma natural, ficando para trás o caminheiro veterano Arlindo, que desde 1940 calcorreia por estas bandas.

Às duas por três, sou envolvido pela lentidão da passada do Josué, avesso a subidas inibidoras da vontade de caminhar. Prestei-lhe a minha solidariedade, o que era uma garantia para os da frente, que deixaram de se preocupar. De pedrinha em pedrinha lá foi andando, com desabafo aqui, disparate ali, e quando aparecia uma subidita mais que tal, logo arfava: "Outra ?!". Era, efectivamente, outra e mais outra, não tinham fim! Eu e o Josué, a subir, parecíamos dois prisioneiros abandonados na montanha, sem grilhetas, escravos da natureza, com a vontade férrea de atingir as Carris. Quando cheguei ao cume (1057 m), o Josué tinha ficado para trás, a vista era deslumbrante! 0 panorama desolador das casas esventradas dos mineiros contrastava com a sensação de leveza e bem-estar! Eram as minas dos Carris, cujo minério era transportado precisamente nos carris, a céu aberto, que ainda lá estão, outrora exploradas pelos alemães até ao início da segunda grande guerra, à cata do ouro negro, o volfrâmio; referia o veterano Arlindo que os alemães pagaram vinte escudos por dia aos trabalhadores portugueses, para fazer o estradão de acesso às minas, cerca de 12 Km. Entretanto, o Rui avançou com os mais radicais para Pitões, onde seguiam, entre outros, o Pimenta, o C. Almeida, o Miguel, o Rego, o Videira, o Joca, a Manuela e a Aurora, e malta de Lisboa e do Porto.

Nos Carris ficou connosco a Ana Maria, que me dizia: "Não vá, que é muito duro e não aguenta, são sete horas a andar, sem parar!". Palavras santas desta caminheira. Segui o seu conselho, se não a esta hora andaria errante aí por S. João da Fraga ou feito nómada por terras montanhosas que dão pelo nome de Altar dos Cabrões (1536 m).

Refastelados nas casas que foram de mineiros, no degrau da entrada, abrimos as nossas mochilas e almoçámos; deu nas vistas a botelha sem rótulo que levara um vinho da Região do Douro superior. Aqui visitámos a lagoa, onde se lavava o minério, e as minas, para além das numerosas casas abandonadas 0 pior estava para vir, do lado de cá e do lado de lá. Descemos para a Portela, mais lestos, onde chegámos pouco depois das 17h00, com o bar da fronteira fechado. Os carros estavam todos ali estacionados.

Dei uma volta ao edifício fronteiriço, por onde passaram milhares de emigrantes, o que é comemorado pelo monumento em granito voltado para a Galiza. De repente, alguém telefona que era preciso ir rápido para Pitões das Júnias, porque do tal grupo dos radicais havia pessoal em dificuldade e era preciso dar apoio. Feita a distribuição das chaves pelas viaturas, toda a minha gente conduz, servindo eu de guia turístico, promovido, à pressa, pelo Parente. Acedi e da zona só me lembro que um dia saí de Tourém, já de noite, e vim ter à fronteira da Madalena, no Lindoso.

Tudo parecia correr bem, mas em Lóbios começam as dificuldades, dado terem cortado a antiga estrada. Com informações pouco seguras, acabámos por entrar numa aldeia castiça, por caminho de carros de bois, em autêntico rally, mas às tantas, nem para a frente, nem para trás. Foi o cabo dos trabalhos!

Regressámos à estrada que nos levava a Tourém, até que surge a ponte fronteiriça que, para atravessar, foi necessário dar a vez ao gado que, pachorrentamente, peto meio da mesma se deslocava duma pastagem galega para cortes portuguesas. Atravessámos a aldeia comunitária "que é um dedo espetado na barriga da Galiza", ouvindo um grito de um jovem: "São todos portugueses":

Pitões das Júnias era já ali, via-se ao longe os cornos da Fonte Fria e eles teriam que passar por ali. Finalmente, chegámos. E os caminheiros? Nem vê-los! 0 primeiro a chegar foi o Rui, cansado, dizendo que o grupo estava atrasado e tinha abordado já dois motoqueiros galegos para repescarem duas caminheiras em dificuldade. A caminhada foi duríssima, pelos vistos.

No final, o grupo desmembrou-se porque nada estava programado: uns foram por Espanha e nós fomos até à vila barrosã de Montalegre, onde comemos a respectiva posta.

Havemos de voltar, mesmo sem caminhar, porque alguém diz que o Gerês é a aspirina do espírito!

 

Luís Gonçalves

in "Aurora do Lima"

03-12-2004