Rotas das Capelas - Labruja
2004-09-18
Quem segue na direcção Sul-Norte, da nobre vila de Ponte de Lima, a caminho de Paredes de Coura, via Faldejães, a cerca de 9,7 Km de distância, encontra ao seu lado esquerdo, a freguesia de Labruja, situada na serra com o mesmo nome, e uma das cinquenta e uma que compõem o concelho de Ponte de Lima. Tem como seu Padroeiro São Cristovão, razão pela qual em escritos católicos se denomina São Cristovão da Labruja.
Foi uma vigairaria de renúncia da apresentação do arcediago de Labruja, da Sé de Braga, e anteriormente do arcediago do mesmo título da Sé de Tuy. Aproveitou do foral de S. Martinho, dado por D. Manuel a 2 de junho de 1515. É uma povoação muito antiga, e se não existia já no tempo dos Romanos, existia com toda a certeza no tempo dos Godos. A tradição faz remontar os seus primórdios ao séc. VI, afirmando que teria tido origem num mosteiro, fundado por Ermógio, bispo de Tuy.
Esta povoação, muito antiga, que remonta ao século VI, foi outrora denominada de “Lauruja”, nome que lhe advinha da serra que a ladeia e que se corrompeu da palavra “Laboriosa” palavra latina que significa trabalhosa, devido á altitude que a mesma possui, e, na qual houve em tempos remotos, um Mosteiro de frades, de que apenas existem pouquíssimos vestígios. Segundo fontes escritas, era uso imemorável, nesta freguesia, quando chovia muito e havia necessidade de sol, irem todos, com o pároco e as crianças a este lugar pedir em clamor, indo à frente os rapazes a cantar “Senhor Deos ouvide a nós, Santa Maria rogai a Deos por nós” seguiam-se as cruzes, o pároco e os paroquianos que, entoando a ladainha chegavam à paróquia, onde ouviam a missa e Deus lhes concedia as Graças pedidas.
Referem certos autores, terem existido, em tempos remotíssimos, (séc. VI-VIII), no cume da dita serra, diversas povoações e fortificações, incluindo a cidade de Labrujia, no sítio da actual Romarigães (parte), sendo esta terra detentora de um clima muito saudável, referindo certos documentos históricos que os homens e mulheres d’aqui viviam dos 100 até 130 anos.
Fontes escritas referem que Theodomiro, rei dos Suevos, em 560 deu a igreja de São Cristovão da Labruja, com seu couto e pertenças, bem como outras, quer deste concelho, quer de concelhos limítrofes, ao bispo de Tuy, sendo o Bispo de Tuy D. Afonso (2º do nome entre os bispos desta cidade), pessoa de muita virtude e grande amigo de D Afonso Henriques. (O bispado de Tuy abrangia a margem direita do rio Lima).
Em setembro de 1125, a rainha D. Teresa e seu filho (futuro D. Afonso I) confirmaram aquela doação por outra.
No actual sítio de Santa Ana (lugar da Bandeira), outrora denominado de “Os Mosteiros”, referem fontes escritas ter existido um convento de freiras e que foi fundado por D. Hermígio (ou Ermógio), bispo da Sé de Tuy e que tal fundação deveu-se ao facto de que, sendo este bispo cativo dos mouros, no ano de 921, na batalha de Val da Junqueira, na qual foram vencidos o rei Ordonho II e D. Sancho Garcia Abarca, rei de Navarra e tendo deixado em Córdova, por reféns de seu resgate um seu sobrinho chamado Payo, tratou logo de juntar dinheiro para satisfazer o resgate, e, quando seguia com esse dinheiro para Córvova, encontrou nesta freguesia um caminheiro, perguntando-lhe de onde vinha, o caminheiro respondeu-lhe que de Córdova, trazer-lhe a triste noticia da morte de seu sobrinho Payo.
Perguntando-lhe como ela ocorreu o mensageiro respondeu-lhe que morrera mártir pela Fé de Cristo. O bispo mostrou grande alegria e começou a correr de baixo para cima, de que, admirado, o mensageiro lhe pergunta a causa de tanta alegria em vista de tão triste noticia, a que lhe respondeu que era pelo facto de deus ter feito um grande milagre um menino santo, de que ele era seu tio e, tendo consigo todo o dinheiro que levava para cumprir o resgate, que não era seu, resolveu no mesmo lugar em que lhe deram a noticia fundar um mosteiro de Freiras, da Ordem de São Bento, de que fora religioso.
Este convento situava-se onde está localizada a capela de Santa Ana e ficou a ser igreja durante muitos anos, enquanto não se construiu uma em lugar mais cómodo. Diz a tradição que o dito Mosteiro foi demolido, talvez por volta do séc. XV, tendo as freiras se mudado para Vitorino das Donas. O seu fundador D. Hermigio (ou Ermógio) passou em penitência os últimos anos da sua vida no mosteiro que fundou e aí faleceu, tendo-lhe sido erigido um monumento sepulcral, que teria sido mandado demolir por Frei Bartolomeu dos Mártires, bispo de braga, tendo ficado a jazer em sepultura rasa.
O referido S. Payo, mártir que atrás se refere, era de tão grande devoção entre os povos dessa civilização, que várias freguesias o escolheram como seu padroeiro (ex. Agualonga, Mozelos, Segude, Jolda...), localidades relativamente perto umas das outras.
Há quem refira ainda, a existência de um outro Mosteiro de Freiras, e que se situava mais ao norte, entre duas serras altas, no local onde se encontra implantada a capela de São João Baptista, também denominado de São João da Grova. Dentro desta capela encontra-se uma grande pia, que em tempos teria sido mudada para uma igreja velha que existiu nesta freguesia (local de Santa Ana) enquanto se construía uma igreja moderna. Diz-se que enquanto aquela pia permaneceu na igreja velha todas as crianças que aí eram baptizadas cegavam, de que os pais pasmados com tal sucedido, a voltaram a levar à capela, onde permanece e que baptizando noutra pia os que iam nascendo, não só estes não cegavam, mas também logravam vista os que eram cegos. Pouco acima desta capela nasce uma fonte, donde parte um regato, no qual, mais abaixo, existe um poço muito alto a que chamam o Poço do Sino, por em tempos aí terem caído; homens, bois, carro e sino quando do seu transporte para o referido Mosteiro de Freiras e que nada voltou a aparecer, ficando o mito de que o poço não tem fundo.
Para além das referidas capelas de Santa Ana e São João Baptista (da Grova) ambas erigidas no tempo em lugar áspero, perdido no meio da serra, existem outras edificações de índole religiosa que testemunham civilizações do passado, é o caso da igreja paroquial, da capela de Santa Cristina, no lugar da Câmboa, pequeno povoado escondido na encosta da serra do Formigoso; Capela da Senhora das Neves, no lugar da Revolta, tendo no seu interior santo Amaro, padroeiro dos aleijões e S. Roque o das feridas nos membros locomotores, viajante de acaso e das doenças contagiosas de homens e de animais; Capela de São Sebastião no lugar do Arco, intercessor contra a peste cujas ermidinhas começaram a espalhar-se á entrada das povoações após a peste grande de 1548 e a capela de N. S. de Guadalupe no lugar de Pessegueiros (propriedade particular).
A Senhora das Neves foi reconstruída no ano de 1970, dado o estado precário em que se encontrava. A sua frente que até então era voltada para poente, passou a ficar voltada para sul, ficando de fronte ao cruzeiro da mesma Santa. Possui no seu pórtico os seguintes dizeres “ESTA CAPELLA E ESTE CRUZEIRO MANDEV FAZER GASPAR ESTEBS E SVA MULER POR SVA DEBOÇAM”. No seu interior existem ainda algumas sepulturas em pedra.
De construção mais recente, mas algo de monumental, orgulho dos naturais da terra, é o Mosteiro do Senhor do Socorro. A sua construção remonta ao séculoXVIII (1773), constituindo o templo e o seu recinto (Santuário) uma obra arquitectónica das mais ricas do Alto Minho. O templo tem fachada aparatosa, duas torres e capela mor, podendo ver-se no seu interior um dos mais notáveis conjuntos de talha da última fase do rocaille, muito delicada e pinturas de índole religiosa.
Tem o seu Santuário, várias imagens biblicas, esculpidas em granito e minuciosamente trabalhadas. Frontalmente, existe uma escadaria, com corrimões, em granito, tendo no seu arranque dois anjos tocando trombeta, e no chão um grande enxota-cães. De cada lado, uma fonte jorra água. Destaque ainda no exterior do santuário para o edifício dos quartéis dos romeiros e para os sete fornos em pedra, onde os peregrinos de outrora assavam os tradicionais cabritos.
É este Santuário, no 1º domingo do mês de julho de cada ano, pólo de famosa romaria, com grande arraial nocturno, fogos de artifício e grandes bandas de música.
Labruja é terra muito fértil, a que se deve o facto de ser atravessada pelo rio Labruja, formado pela confluência dos ribeiros de S. João e Mestre, famoso pelas suas trutas, o qual vai embocar na margem direita do rio Lima. No decorrer do seu percurso podem apreciar-se várias pontes que evidenciam grande interesse histórico-arqueológico, a ponte do Arco sobre o rio Labruja talvez de origem românica, tendo nítidos os rústicos nas almofadas, tendo sido alargada para dar passagem á nova estrada. Destaque para a ponte do Arquinho, dos séc. XIII-XIV (ou talvez também de origem românica), sobre o ribeiro de S. João junto á sua confluência com o ribeiro Mestre. Tem apenas um arco, redondo de quatro metros de lado, com aduelas características. Ao longo destes cursos de água cristalina, podem ainda ver-se alguns velhos moinhos, quase todos já desactivados.
Labruja era caminho de legiões, estando ainda muito ligada aos caminhos de Santiago, sendo atravessada pela rota do “Caminho Português” que de Ponte de Lima se dirige para Santiago, cruzado diariamente por devotos peregrinos. Ao longo do seu trajecto vários locais se destacam tal como no lugar de Vinhó de Baixo um singular “esteio” que nunca foi, plantado a meio do caminho, sendo um padrão constituído por pedras de silharia, tendo o seu remate trabalhado, embora rudemente (altura: 3,20 m., largura por face 0,55 m.). Ao pé, passa o regato da Câmboa e a Fonte das Três Bicas, que seria local de estacionamento obrigatório de homens e animais. A água jorra efectivamente por tríplice escoadouro depois de passar por um pequeno tanque rudemente escavado numa pedra. Um pouco mais acima, no lugar de Espinheiros, dentro dum portal, ergue-se uma casa, com um tosco alpendre no alto das escadas de pedra. A servir-lhe de apoio, um miliário cilíndrico, medindo 0,50 de diâmetro por 2,00 de altura. Viraram-no de cabeça para baixo, dado que, desse topo, possuía maior e melhor base para assentar no chão. Por aqui passava a via militar de Braga para Astorga, na Galiza.
“E por fim falta-nos visitar uma pequena capela situada no lugar da Bandeira, instalada numa pequena encosta solarenga. Remonta a sua origem, cerca de duas décadas atrás, aquando da passagem de um casal de eremitas que por aqui resolveu parar encantado com tanta beleza”.
Labruja é assim uma povoação impregnada de variados contrastes. Vamos pois melhor conhece-la.
Bibliografia:
José Pereira da Cunha Nunes
Dicionário Enciclopédico das Freguesias
Proto-história e romanização da bacia do Vale do Lima