Nas Casarotas da Serra Amarela
2004-02-14
As Casarotas da Serra da AmarelaConstruções megalíticas com uma inscrição.
Num dos cabeços da Serra da Amarela, a uns mil metros de altitude e em terrenos de pastagem de Vilarinho da Furna, povoação da freguesia de 5, João do Campo, de Terras de Bouro, levanta-se um grupo de construções megalíticas de planta rectangular com as esquinas arredondadas, de tamanhos variáveis, devendo ter as mais pequenas uns 3x2 m e as maiores o dobro do comprimento. Algumas são duplas e divididas ao meio por uma parede (medidas aproximadas por faltar fila métrica). A construção é muito grosseira e feita de grandes blocos de granito, por vezes talhados em forma de enormes lajes, como é vulgar encontrarmos em construções dolménicas, sendo a cobertura também de grandes capeias de granito, que em parte se encontram ainda no seu lugar, mas também em abundância amontoadas no fundo dos edifícios.
A originalidade destas edificações que vistas de certo lado parecem dolmens, mas que examinadas de perto diferem destes monumentos arqueológicos, aparece-me como um problema que interessa resolver e que de momento permite aventar várias hipóteses.
O tipo arcaico desta construção, as grandes lajes que a revestem e até a tendência a orientar as portas para o nascente, e a sua situação no cimo dum cabeço, longe de terrenos de cultura, pode levar a atribuir-se-lhe um carácter pré-histórico, talvez uma necrópole pré-romana.
Porém, uma pequena muralha, que se prolonga umas dezenas de melros pelo lado norte das edificações, a inacessibilidade do cabeço, e até a tradição popular, que considera estas construções como casarotas feitas por um capitão para ai viver acampado com os seus soldados, também permite pensar-se em atribuir-lhe natureza castreja, participando, até pelo arredondado da planta, da tendência circular dos edifícios, de vários castros do noroeste peninsular. Contudo, as casarotas da Serra da Amarela, são bastante mais rústicas e ciclópicas, que as casas dos castros que conheço e inclino-me a considerá-las como construções de tempos históricos, utilizadas para qualquer fim. Só depois de se levarem a cabo escavações metódicas, será possível chegar-se a uma conclusão mais segura.
O ilustre arqueólogo galego, Firmin Bouza-Brey a quem mostrei as fotografias aqui reproduzidas, inclina-se a que sejam construções em que foram aproveitadas as pedras de dolmens, ou até os próprios dolmens transformados. De facto, o tipo das pedras e a sua disposição. sobretudo do lado das portas, faz pensar nisso. O facto de se encontrarem pela região umas cabanas circulares, muito rústicas, que servem de abrigos temporários aos pastores, faz com que amigos meus as relacionassem com essas construções. Contudo, se há uma certa identidade de construção, também há uma grande divergência.
Primeiro, as cabanas circulares dos pastores actuais, são mais pequenas e construídas com pedras secas bastante mais pequenas e cobertas em abóbada por lajes encasteladas em forma cónica e recobertas de torrões, encontrando-se sempre muito longe umas das outras. Aqui aparece um grupo dumas vinte construções, maiores que as cabanas actuais, feitas de blocos muitíssimo maiores e de cobertura chata.
Mas, esta relação com as cabanas dos pastores talvez fosse conduzir a uma curiosa solução, que traria também um elemento de grande interesse para a etnografia é muito possível que estas construções tivessem sido uma antiga branda dos pastores de Vilarinho, ou de qualquer outra aldeia próxima. Na região da Peneda e Soajo, principalmente em Castro Laboreiro, ainda hoje há várias aldeias duplas, servindo as dos vates para passar o Inverno - Inverneiras) e as dos altos para passar o Verão (Veranda). Este género de nomadismo periódico e restrito a dois lugares é condicionado por uma economia pastoril em regiões de montanha, e extensivo a várias regiões da Europa, como o vaie de Anniviers na Suíça e a uma grande zona das Astúrias. Nas Astúrias, muitas destas aldeias de verão são muito rústicas e formadas de construções circulares cobertas de colmo, vivendo os homens e os animais na mesma casa, só separados por uma parede. Muitas das brandas passaram hoje a aldeias fixas e outras foram abandonadas segundo as necessidades dos povos pastores e a evolução da sua economia. É, pois, muito natural, que as Casarotas da Amarela, tivessem sido as casas duma branda há séculos abandonada, talvez porque os habitantes da região descobriram uma maneira mais cómoda de aproveitar as pastagens altas, mediante uma organização colectiva, em que dois pastores substituídos diariamente par outros dois à vez por todos os vizinhos, só precisam de passar uma noite na serra, para o que lhes basta uma cabana em cada lugar de pernoita, como se dá em S. João do Campo e Vilarinho de Furnas. Parece-me ser esta a hipótese mais plausível, mas, como disse, só depois de se fazerem escavações teremos talvez a solução.
Devemos acrescentar, que numa destas lajes verticais aparece uma inscrição tosca de caracteres que em parte parecem modernos e em parte estranhos, que não sabemos interpretar e que também nenhum dos especialistas consultados pôde dizer qualquer coisa de concreto.
Os textos apresentados foram recolhidos em obras diversas