SERRA DA NÓ E A SUA LENDA

 

Na busca do castelo do mouro Abakir que se apaixonou pela pastora Zuleima, subimos ao monte da Nó ou Nora, a 580 metros de altitude, onde os nossos olhos se pregaram, embevecidos, nos quadros paisagísticos das aldeias envolventes. Em seu redor circundam as freguesias de Fojo Lobal, Rebordões, Facha, ‑ Vitorino dos Piães a Cabaços. Lá mais ao longe, Bertiandos, Estorãos e a Sra. do Minho. Virados para nascente, avista‑se a Armada e a Boalhosa, com o vale do Trovela a seus pés e o Monte do Oural, no cimo, a encobrir Godinhaços, onde o rio Neiva brota as primeiras águas. No horizonte, a Serra Amarela estava coberta de neve, tal como a Pedrada (Peneda), o ponto mais alto do Alto Minho.

Era o dia 11 de Janeiro do ano 2003, quando pelas oito horas a trinta, seguimos até à Seara, a em Vitorino dos Piães, fomos subindo o estradão florestal até à capela de W Sra. da Conceição. Paramos para descansar a retomar forças para a subida até ao, marco geodésico, encimado num penedo altivo, mas de fácil acesso.

Por ali estavam duas mesas de pedra, bem torneadas a para onde foram lançados os farnéis típicos de montanha destes caminheiros que continuam a perpetuar a vertente gastronómica das tradicionais romarias alto‑minhotas... Comemos e saboreamos as pataniscas da Lurdes Vieira, o pernil fumado do Ernesto, o anis abagaçado do Carlos Manuel a as charniqueiras da Fina. Até houve quem trouxesse "Esporão 1982" para acompanhar!... E esta, hein?

No alto, junto ao posto de observação dos fogos florestais, vulgo posto de vigia, foram "baptizados" alguns caminheiros, segundo o novo ritual dos Amigos da Chão, sob as palavras de um latim macarrónico: "Arreum porum, bota abaixarum, Amén". Foram eles: o Armando Branco (hip‑urra!), António Pires, Maria do Carmo Santos, Pedro Monteiro, Maria do Carmo Sousa a Francisco Sousa.

A partir daqui era o retorno. Vimos as minas de ouro abandonadas, ao que se julga dos tempos romanos, estando a descoberto as crateras; toda a zona envolvente faz‑nos remontar aos primórdios da nacionalidade, monte ocupado por romanos a depois pelo povo invasor da península, os mouros; daí, que a lenda da Serra da Nó tenha algo a ver com esta realidade e o dito castelo tenha sido mesmo ocupado pelos mouros.

E fomos até ao sítio onde, efectivamente, restam vestígios de uma fortificação em granito, que se julga ter sido o castelo da Serra da Nó a uma vez no local, o Miguel dá‑nos um papel com a sua lenda, a toca de ler, à boa maneira do Prof. Hermano: meus amigos, foi aqui... que o jovem rei mouro, Abakir, ambicioso a apaixonado, que dominava um vasto território a por onde corria o rio Lima. Um dia, Abakir foi caçar, rodeado de guardas, falcoeiros a cães de caça a eis que se lhe depara, guardando um pequeno rebanho de ovelhas, uma jovem pastora, chamada Zuleima, cuja beleza logo entrou no coração do rei Abak Este aproximou‑se da pastora a pediu‑lhe que fosse até ao seu castelo, edifício na Serra da Nó; porém, pastora não acedeu ao  convite, o que irritou Abakir mandando prendê‑la no seu castelo até que ela pedisse perdão.

A recusa da jovem pastora, à medida que o tempo passava, fazia aumentar paixão e o desespero  Abakir que, não aguentando o amor que lhe abrasava peito, mandou chamar Zuleima à sua presença a disse‑lhe:

‑ Pede‑me tudo o que quiseres a tudo to darei, se consentires ser minha esposa.

Respondeu‑lhe a pastora, com muita firmeza, mas também quebrada pelo amor ao jovem rei que dela apoderara:

‑ Aceito ser tua esposa, mas na condição de ser a tua única rainha a me seres sempre fiel.

O rei Abakir, de imediato, aceitou as condições impostas pela sua bem‑amada Zuleima, e o castelo entrou em festa para comemorar tão esplendoroso acontecimento.

Entre diversões a caçadas o casal jovem passou anos de verdadeira felicidade, até ao momento em que um exército cristão vindo do norte se aproximou dos domínios de Abakir, para o aprisionar a tomar‑lhe o castelo; porém, nem Abakir, nem castelo a nem a sua única rainha!

Diz‑se que, em noites enluaradas, um vulto de mulher, envolto, ora em vestes rogaçantes e faustosas, ora na simplicidade do trajo campestre, vagueia pela Serra da Nó. Quem será? Talvez a pastora, depois rainha, saudosa do seu rebanho, do seu castelo a do seu amado Abakir.

Regressados à base inicial, onde foram deixados os carros, havia que petiscar algo em local condizente, tasca ou taberna, de preferência. Alguém se lembrou de ir à taberna do Afonso, em Poiares, junto à Capela de S. Roque; lá fomos, não todos os caminheiros, mas o núcleo dos "amigos da chão". Ficamos a saber que ali se come bom bacalhau assado na brasa, preparado de forma especial. Na hora da abalada, todos se despediram com um aguado até breve. Ainda há relíquias destas, felizmente!

 

in:

Aurora do Lima  05/02/2003

Luís Gonçalves

Amigos da Chão