Romeiros a S. João D'Arga
2002-08-28
LENDA DA SERRA DE ARGA
A impaciência do jovem Egica contrastava com calmaria dessa linda manhã de Primavera. O sol iluminava aquecia o solo com o seu beijo quente, a passarada esvoaçava saltitante, sem os problemas daqueles que habitam terra. Mas o jovem Egica não via, não ouvia, não sentia nada mais à sua volta do que o objecto que o preocupava.Preparado para montar de repente no seu cavalo veloz - caso surgisse qualquer complicação ou a sua bem amada aparecesse, tal como estava combinado - Egica encheu o peito de ar para combater a respiração difícil que lhe causava o desespero em que se encontrava. Eulália - o seu grande amor - dissera-lhe dos projectos de seu pai, o rei Ervígio: casá-la com o guerreiro Remismundo. E logo o par amoroso planeou a fuga que lhes daria a liberdade. Mas Eulália não chegava no momento combinado. Eulália demorava-se. Porquê? Teria o rei descoberto o plano que haviam arquitectado com tanta minúcia?
O Sol avançava na sua linha de movimento aparente. E a impaciência de Egica avançava também pelo seu corpo, transmitindo-a ao próprio cavalo, que batia com as patas no solo.
De súbito, reteve a respiração. Alguém contornava a esquina murada, com passo leve e apressado. Era Eulália, finalmente! Ele correu para ela. Tomou-a nos braços.
- Querida! Tenho a sensação de ter esperado uma eternidade!
Ela tremia e falou em voz baixa, como se temesse ser ouvida:
- Egica! Partamos imediatamente! Os soldados de meu pai perseguem-me! Deram pela minha fuga!
O jovem ajudou-a a subir para o cavalo e recomendou-lhe, enquanto montava também:
- Segura-te a mim. O cavalo é veloz...
E, sem mais explicações, Egica esporeou o alazão e partiu como uma seta.
No ar ficou por um momento o eco desse galope desenfreado...
Entretanto, os soldados de Ervígio procuravam o par em fuga. Não se atreviam a regressar sem a missão cumprida. Contudo o dia ia-se prolongando, os cavalos enchiam-se de cansaço e espuma, e o próprio cheiro a Primavera parecia cúmplice na fuga de Eulália e do jovem Egica, envolvendo-os no seu manto de mistério para que não fossem encontrados...
A tarde já ia em meio quando jovem fez descer a sua noiva e a conduziu junto a um regato, para descansarem.
Receosa, ela olhou em volta.
- Teremos levado grande dianteira?
Ele beijou-lhe a testa coberta de pó.
- Querida, nada receies! Eles perderam-nos de vista e julgam que seguimos para o norte, onde me era fácil encontrar gente amiga. Porém... troquei-lhes as voltas...
- E para onde vamos?
- Vou tentar atravessar a Galiza e procurar refúgio seguro no Mosteiro Máximo, onde sei que se encontra um grande amigo de meu pai. Ele nos ajudará!
Com voz ansiosa, Eulália perguntou:
- Ainda estamos longe?
O braço forte do jovem guerreiro ergueu-se, apontando o horizonte.
- O recorte do Monte Medúlio já se divisa além. É só mais um esforço!
- E é nesse monte que existe o mosteiro que procuras?
- Sim, meu amor. Verás que tudo correrá bem!
Ela sorriu-lhe. Um sorriso quase infantil. Mas logo a sua expressão entristeceu.
- Só por ti receio, Egica!
- Por mim? E por ti? Já pensaste bem o que viria a acontecer se os soldados de teu pai nos apanhassem e conseguissem arrancar-te dos meus braços? Confesso-te que preferiria a morte, mil vezes!
Ela levantou-se como quem descobre de súbito um fantasma.
- Continuemos a cavalgar! Tenho medo! Detesto Remismundo. É traiçoeiro, feio e irascível. Se te apanham, matam-te! Ele odeia-te. Odeia-te porque te inveja!
Egica sorriu, numa tentativa para acalmar a sua bem amada. Passou-lhe o braço pelo ombro. Puxou-a para si docemente. Mas como ela olhasse em redor com o medo estampado no rosto, ajudou-a de novo a montar, declarando-lhe:
- Na verdade é melhor seguirmos viagem quanto antes. Teremos de chegar ao mosteiro primeiro que a noite desça sobre a montanha.
O cavalo abrandou a marcha. Estava visivelmente cansado. A penumbra que antecede a noite envolvia completamente aquele estranho grupo no cenário grandioso do Monte Medúlio. Lá estava o Mosteiro Máximo, meta dessa carreira que durava há algumas horas. O silêncio naquele local e àquela hora era impressionante. Ouviam-se as próprias respirações, alteradas pelo cansaço e pela emoção.
Descendo da montada, o par fugitivo dirigiu-se para o mosteiro, e bateu à porta, discretamente. Um homem com o rosto quase tapado veio abrir. Egica tivera o cuidado de colocar Eulália fora do alcance visual do monge. E perguntou, com certa ansiedade na voz:
- Irmão, perdoai se venho molestar-vos a esta hora. Mas precisava de falar com urgência ao irmão Gondemaro.
O monge porteiro fechou o postigo por onde espreitara. O silêncio voltou a envolver a serra. A espera foi curta, mas o coração de Egica bateu mais forte quando o postigo voltou a abrir-se. Desta vez, porém, assomou um outro rosto, que abriu os olhos num espanto incontido.
- Louvado seja Deus! Quem vejo na minha frente!
Egica sorriu.
- Sim irmão Gondemaro! Sou eu... o filho do homem que ccrnvertes-tes em Salinas!
- E que me quereis?
- Preciso do vosso auxílio. Trago comigo alguém a quem muito quero e que corre perigo neste momento.
Chamou, com doçura:
- Eulália! Aproxima-te.
A jovem apareceu ante os olhos ainda mais espantados do velho monge. Com voz quase velada, ele perguntou a Egica:
- Quem é esta dama?
· jovem elucidou:
- É Eulália, a filha do rei Ervígio.
O monge levou uma das mãos ao peito.
- Santo Deus! Entrai para onde vos não vejam aqui e contai-me o que neste momento vos aflige.
E, abrindo com precaução singular a grande porta do mosteiro, o monge introduziu na santa morada o casal fugitivo.
Lá fora, a noite começava a cair...
Quando o jovem Egica acabou o relato da sua odisseia ' raptando a filha do rei Ervígio para vir ao Mosteiro Máximo de Monte Medúlio procurar um amigo que os casasse, o irmão Gondemaro olhou-os fixamente, num ar aflito.
- Que o Senhor Deus dos Exércitos me inspire, pois não sei que hei-de fazer!
Egica sobressaltou-se.
- Não sabeis... porquê?
O monge explicou:
- A noite envolve agora os campos e isto aqui é deserto! Todavia, no mosteiro não podem ficar mulheres e muito menos a filha do rei Ervígio!
Eulália levantou-se com dignidade. - Não desejo ser uma sombra para a vossa consciência. Aceito a expulsão e só desejo que a morte me encontre depressa!
Egica protestou, magoado:
- Eulália! Enquanto o meu braço puder erguer-se, nenhum mal te acontecerá! Continuemos descendo a terra lusitana até aos Hermínios e talvez os contrafortes dessa serra sejam mais generosos que este mosteiro!
O monge tapou o rosto com as mãos. Silenciou durante alguns segundos. Depois murmurou, como em oração:
- Que Deus se amerceie de mim!
Destapou o rosto e encarou os jovens.
- Se vos deixo partir, os lobos ou os salteadores poderão matar-vos. Se vos recolho... atraiçoo uma das nossas regras! Que hei-de fazer? Que Deus me inspire!
Egica retorquiu:
- Escolhei, irmão, entre as nossas vidas e a tranquilidade da vossa consciência.
- Ai de mim! A tranquilidade foi-se com o pôr do sol e a vossa aparição. Não há, pois, por onde escolher. Ficai! Vou casar-vos. Agora mesmo e secretamente. Depois emprestarei um hábito à filha do rei Ervígio para que pernoite aqui. Todavia, logo que a luz do dia desponte, dar-vos-ei um salvo-conduto para que possais ir à presença da dama que vive num castelo próximo. Só ela poderá abrigar-vos.
Egica apertou a mão do monge.
- Que Deus vos recompense, irmão Gondemaro!
Quando a manhã voltou a banhar de luz os campos, onde os passarinhos saltitavam cantando e brincando alegremente, encontrou os noivos já prontos para a nova jornada, aliás curta.
Com a alma gritando alegrias, o par enamorado despediu-se do monge Gondemaro. No rosto dos jovens espalhava-se a felicidade. O monge reparou neles e disse, olhando a filha de Ervígio:
- Pareceis outra, esta manhã!
Ela sorriu-lhe.
- Sou feliz, irmão Gondemaro! E não esquecerei quanto vos devo dessa felicidade.
O monge meneou a cabeça.
- Não canteis hossanas antes de tempo! A tempestade ainda não passou. Há que informar vosso pai da decisão que tomastes e obter o seu perdão. Felicidade é o reflexo da paz nos vossos corações. Sem essa paz, nada fará sentido. Mas ide. Deus vos abençoará! Vou enviar ao rei vosso pai um mensageiro de confiança, pedindo-lhe perdão para vós dois... e para mim, que vos uni na presença de Deus sem o consentimento do rei Ervígio.
O jovem godo sorriu para o monge. - Quanto vos ficamos devendo! Só Deus poderá pagar-vos!
Eulália olhava agora o estranho habitante do mosteiro com certa ansiedade. Egica depressa deu por essa repentina mudança.
- Que tens, meu amor?
Ela fitou o horizonte distante. A sua voz fraca, de menina, esclareceu num suspiro:
- Meu pai era tão meu amigo! E tudo isto por causa de um guerreiro ambicioso que fingiu amar-me e jurou coisas incríveis... Gostava de saber o que fará meu pai depois de escutar o vosso mensageiro, irmão Gondemaro.
Ele prometeu:
- Irei procurar-vos e far-vos-ei ciente da sua resposta, seja ela qual for. Ide, pois, descansada na paz do Senhor, porque a luz do dia já é clara!
Eulália olhou em volta, como se visse aquele cenário pela primeira vez.
- Como é linda esta serra! Os Romanos chamaram-lhe Monte Medúlio? Pois eu penso que ela mais parece uma enorme agra. Quem a cultiva, irmão Gondemaro?
- Os monges do nosso mosteiro e alguns particulares. Todos aqui trabalham. Esta é uma terra abençoada por Deus!
Egica sorriu, repetindo:
- Serra de Agra! Eis um bom nome, com o qual a baptizo.
O monge sorriu também.
- E julgais que assim ficará chamada a serra, só porque vós assim a denominais?
Egica sentenciou, teimoso, com aquela energia que punha em todas as suas palavras e actos:
- Daqui por diante os nossos filhos só conhecerão esta serra como a de Agra. Os nossos netos falarão dela aos seus netos. E assim por diante, através dos séculos!
No rosto do monge nasceu uma expressão de dúvida. Mas sorriu, incitando:
- Experimentai ... se, isso vos apraz. Tudo é possível quando Deus quer!
E despedindo-se:
- Adeus, irmãos. Que o Senhor vos acompanhe!
Alguns meses passaram. Eulália e Egica continuavam no castelo onde o salvo-conduto do monge Gondemaro os abrigara. Não mais tiveram novas dos soldados de Ervígio. Mas a saudade do lar paterno punha uma secreta mágoa no coração de Eulália, horas esquecidas espreitando, do mirante do castelo, o horizonte mudo, para lá da serra de Agra.
Certo dia, Eulália descobriu um vulto caminhando em direcção ao castelo. Desceu a correr, com o coração batendo tão forte que lhe estremecia a túnica alvíssima.
Chegada à porta larga, abriu-a e viu na sua frente o irmão Gondemaro. Sem hesitar, correu para ele.
- Trazeis-me notícias de meu pai?
Ele sorriu e falou num ar descansado:
- Recebi-as ontem ao anoitecer e pus-me a caminho logo de manhã.
- E que novas me trazeis?
- Vosso pai enviou esta resposta: «Se me derem um neto varão, perdoar-lhes-ei a fuga e a desobediência e nomearei Egica meu sucessor. Se me não derem um neto no prazo de um ano, esquecerei que tive uma filha chamada Eulália! »
A jovem uniu as mãos em muda acção de graças. O seu rosto transfigurou-se quase e a tremura das pernas obrigou-a a sentar-se numa pedra da entrada. Entretanto Egica chegava de um passeio a cavalo e, vendo o monge, correu também para ele.
- Muito me alegro em ver-vos!
Eulália não lhe deu tempo a prosseguir. Precisava exteriorizar a sua felicidade:
- Egica! Meu pai Perdoa-nos se lhe dermos um neto dentro de um ano e nomeia-te seu sucessor!
Egica olhou a jovem esposa com enleio.
- Querida! Teremos de pedir a Deus que o filho que esperamos seja um rapaz! Nascerá nesta serra de Agra e será um dia rei dos Visigodos!
Como num eco, o monge ajuntou: - Que Deus vos oiça!
Eulália voltou a olhar o horizonte, que desta vez parecia mais claro, menos fechado. Egica passou-lhe o braço pelos ombros e beijou-a nos cabelos. Esqueceram por momentos a presença do monge. E quando se lembraram dele, viram-no já, amparado ao seu bordão, a caminho do Mosteiro Máximo.
Eles riram, contentes.
Egica murmurou:
- Pobre velho! Nem sequer lhe agradecemos! E deve ser-lhe difícil, esta viagem a pé.
Eulália encostou a sua linda cabeça ao braço forte do marido.
- Lavar-lhe-emos o nosso filhinho logo que nasça, para que ele o abençoe!
Ele acariciou-lhe os cabelos. - E depois?
Eulália suspirou fundo:
- Depois... depois...
A voz sumiu-se-lhe quase, de emoção:
- Depois... partiremos, de novo, mas desta vez... sem medo de sermos perseguidos pelos soldados do rei Ervígio!...
Os textos apresentados foram recolhidos em obras diversas