Marcha às Torres

2000/11/04

 

Monumentos Arqueológicos do Parque Nacional

A Torre Grande (Lindoso)

Quem, guiado pela estrada que de Lindoso conduz à fronteira da Madalena, a abandonar pouca antes de chegar ao vale do Cabril e seguir para montante através de um caminho de pé posto ao longo da margem esquerda desta rio, não deixará de ficar impressionado com o imponente maciço da Torre Grande que cada vez mais perto se vai alongando no horizonte.

Ultrapassado o Cabril na ponte rústica de Portamaceira - sustida por um pilar central assente num formidável penedo arrastado para o leito do Cabril - o visitante começará a contornar a Torre Grande seguindo primeiro o vale cavado e fundo do rio dos Madornos e logo depois, virando a sul, o da ribeira de Gavião.

Chegando à cabana de Gavião, um abrigo pastoril de silhares graníticos, com tecto em falsa cúpula e grossa laje de fecho, torna a virar a Oeste e sobe, agora mais custosamente, até à Chã da Torre.

A Chã, suave e coleante, alongando-se entre a Torre Grande e a Colá da Bruta, é rasgada a espaços por afloramentos graníticos de grão médio a grosso, rugosos e muito erodidos. É este o tipo de granito que foi utilizado na construção das estruturas de habitação que pontilham igualmente a chã.

São construções de planta quadrada ou sub-rectangular, hoje totalmente arruinadas, formadas por grandes blocos mal aparelhados e sem qualquer argamassa de ligação, Uma observação rápida, afastado o giestal e o silvedo, permite lobrigar curiosas paredes duplamente facetadas e com vão central aberto.  Recordam-me algumas das casinhotas do povoado de Porto Chão que o fogo lambeu no Verão que há pouco se despediu.

As "casas" da Chã da Torre não ultrapassam os 5 ou 6 metros de comprimento, algumas são mesmo mais pequenas, toscas e informes, provavelmente teriam remates em falsa cúpula empedrados e torroados ou com grandes lajes lisas corno ainda hoje se podem ver na branda da Chã de Mosqueiros, na serra do Soajo.  Mas em Mosqueiros cada cabana tinha a sua cerca, qual recinto megalítico do tipo "cromlech", para reter os gados.  Aqui na Chã da Torre as casas são poucas, quase irreconhecíveis já, sem evidências de alguma vez terem tido cercados ou pátios exteriores, algumas com paredes duplas e vão central aberto, ora adoçadas entre si, ora isoladas mas sempre de aparelho bruto.  Quer no interior, quer em seu redor, não se descobrem quaisquer outros vestígios materiais, nomeadamente cerâmicas.

Um abrigo pastoril ainda utilizável, a oeste da chá, de planta subcircular, portinha bem rasgada e tecto em falsa cúpula formado por pequenas pedras imbricadas entre si e torroadas exteriormente onde fermenta um pequeno pasto de herbáceas, é uma construção que rasga o insólito dos restos que vínhamos observando e deles sobressai.  Neste abrigo, semelhante a muitos que ainda são utilizados pelos pastores das serranias do Noroeste, só a porta ostenta pedras facetadas de maiores dimensões.  O interior é um solo em terra bem compactada pelo uso, assentando o conjunto sobre uma espécie de mamoa artificial.

Subindo-se à Torre Grande, imponente maciço de moles graníticas franqueado a oeste pelo rio Cabril e a leste pela ribeira de Gavião, ao atingir-se o Alto da Torre a primeira sensação é de pequenez frente ao deslumbramento de horizontes.  Na última vez que aqui estive e era Verão, o vento esfibrava uma chuva miúda e zunia em cargas forçadas, logo amainado, como que a zombar dos caminheiros.

Mas no Alto da Torro, que amplidões de maravilha!

Para norte, o grande rasgão do vale do Lima a cortar cerco o abraço das serras do Soajo e Amarela, e a receber o desmaio do fio de água do Cabril de margens ainda densamente arborizadas.  Para sul, é o verde carregado da mata do Cabril, uma das jóias da coroa do Parque Nacional e que mentes ignaras tentaram nos anos 20 transformar em carvão!

E a nossos pés, juntinho à Torre Grande mas isolada por uma fenda abissal larga de alguns metros, levanta-se o inacessível pináculo da Torre Pequena.

Estar no Alto da Torre Grande em dia chuvoso e de ventos peregrinos, nuvens baixas e carregadas, é como sentir-se tocar quase o tecto do mundo, pese embora os pouco mais de 600 metros de altitude.  Ao longe, os maciços retalhados do Soajo e da Peneda, rebuçados por chapéus esparsos de nuvens cinzentonas, destacam-se esgarnados das feridas profundas que o avanço das obras do Alto Lindoso por ali vai rasgando.  Mais perto, a Amarela, que nos envolve pontilhada pela vezeira da cabrada do Lindoso...

Mas no alto da Torre Grande, aproveitando os interstícios entre as fragas formidáveis, criando pequenas chãs onde as terras se sustêm das fortes erosões, há igualmente restos de estruturas arqueológicas.  São construções de plantas rectangulares e quadrangulares, formadas por pedras de proporções razoáveis, aparelhadas, e ora soltas, ora adoçadas entre si, de que só restam as plantas térreas.

  Uma prospecção sumária pelas pequenas chás e cumeadas do Alto da Torre permite identificar um tipo de povoamento diferenciado do que vínhamos descrevendo nos baixios da Chá da Torre.  Assim, no Alto da Torre as estruturas habitacionais são melhor delineadas e constituídas por blocos graníticos melhor aparelhados.  Há uma mais cuidada distribuição espacial e, facto muito importante, estão associadas a cerâmicas de tipo aparentemente romano, que aparecem em grande profusão à superfície e em bolsas entre penedias.

  São formas estruturais e aparelhos idênticos ao povoado que foi já identificado no "plateau" a sul do castelo de Castro Laboreiro, onde aparece igualmente o mesmo tipo de material cerâmico em superfície, nomeadamente tegulae, tijoleira e cerâmica comum romana. E hoje não duvido em paralelizar os 2 povoados como pertencentes à mesma época e tendo em comum as seguintes características:

  a) Em ambos se identificam restos de construções de planta rectangular ou quadrangular, com muros formados por uma só fiada de pedras bem aparelhadas e de proporções razoáveis, ainda que nos recintos delimitados por estes blocos não se perceba qual fosse o tipo de cobertura.

  b) Em ambos há uma clara tentativa de ordenamento de espaço onde surgem as estruturas, criando-se formas que poderemos considerar de um proto-urbanismo, surgindo nomeadamente no povoado de Castro Labareiro uma via como eixo central com as construções adoçadas à direita e à esquerda.  Esta tentativa de ordenamento urbano é menos evidente no Alto da Torre, onde a chã é menos favorável e mais irregular do que em Castro Laboreiro, o que faz com que algumas das estruturas de habitação aproveitem mesmo afloramentos mais reentramos e suas saliências, integrando-os nas próprias habitações.

  c) Num e noutro povoado é vulgar encontrarem-se tegulas, grossos telhões de cerâmica avermolhada e acastanhada muito compacta, de tipo romano.  Encontram-se igualmente materiais cerâmicas diversos, todos do tipo da "cerâmica comum" romana, grosseira e sem qualquer tipo de decoração, e mesmo restos de solos em barro cozido compactado.

  d) A localização de qualquer um dos povoados é dominante e estratégica relativamente à região envolvente, Assim, enquanto no povoado de Castro Laboreiro este assenta num bem desenvolvido "plateau" dominado pelo maciço do castelo, mas bem defendido e encaixado entre este e as vertentes abruptas do rio Castro Laboreiro, o povoado do Alto da Torre distribui-se pelos cumes e reentrâncias do formidável maciço da Torre Grande, dominando completamente a região e boa parte do curso do rio Cabril.

Os textos apresentados foram recolhidos em obras diversas