Marcha da Meia Encosta - Cerquido

2000-10-14

Fica a Serra d'Arga situada no Alto Minho e incrustada entre os vales do Lima e Coura numa extensão de cerca de 20 quilómetros no sentido Este-Oeste, ramificando-se por todos os quadrantes geográficos em diversas elevações com os mais variados nomes.  Abrange áreas pertencentes aos concelhos de Caminha, Viana do Castelo, Ponte de Lima, Vila Nova de Cerveira e Paredes de Coura.  Tem uma altitude de 840 metros o que a leva a impor-se pela sua imponência, aridez e grandiosidade.  O granito e o xisto são as rochas que a cobrem, dando-lhe uma paisagem serrana agreste e ao mesmo tempo encobridora de ouro e de prata, que os romanos exploraram, do volfrâmio que durante a guerra matou a fome a muita gente.

A época das chuvas, entre Novembro e Março, pode causar uma precipitação até 1800 mm.  Os nevões são frequentes, acontecendo que há anos em que a Serra permanece coberta de geada durante alguns dias e as temperaturas são, nestas ocasiões, muito baixas, fazendo com que o lobo desça aos povoados à procura dos rebanhos, sobretudo de noite.

Pelo contrário, no Verão, há temperaturas muito altas e verifica-se um clima seco.  Dai a grande amplitude térmica nesta região, favorável a alguns tipos de fauna, como o coelho bravo, a perdiz, o javali, o lobo, a raposa, etc.… e aos animais domésticos habituais.

A par desta fauna, aparece a flora indígena: sobreiros mansas e bravos, carvalhos, castanheiros, os louros, as faias e as giestas são o sinal mais evidente deste selvagem crescimento florestal com zonas bem demarcados pela acção dos Serviços Nacionais das Florestas que há 50 anos deram à Serra outra imagem, transformando um pouco a sua geografia, a flora, e condicionaram mais algumas tradições ancestrais dos povos aqui radicados.

Ali, nascem muitos ribeiros, além do Rio Coura que desagua na foz do Minho e do Rio Âncora que desagua directamente no mar.

Encontram-se nesta Serra boas nascentes e é vulgar ouvir-se dizer que as águas deliciosas das suas fontes são medicinais.  Em tempos não muito longínquos, era vulgar gente de Caminha e Viana ir às Fontes da Urze e das Águas Férreas buscar água para tratar os males digestivos, receitada por médicos distintos.

Há documentos da passagem do homem pela Serra.  Conhecemos da pré-história, hieróglifos da Igreja dos Mouros, na Costa do Carvalho, assim como temos cerâmica castreja e romana e um símbolo fálico.  Sob o Alto da Coroa, existe o penedo das Ferraduras.

 Os hieróglifos já foram motivo de estudo e de informação por Lourenço Alves no "Notícias. de Viana" e, os outros documentos, no Boletim Cultural, do Centro de Estudos Regionais, n.º 1, de 1884.

 Paulo Osório, historiador bracarense do século IV, referindo-se à conquista da Península Ibérica, Iniciada no século III, quando tiveram de ser vencidos os Celtiberos, os Galaicos e os lusitanos, diz que os Galaicos, situados entre o Mar Cantábrico e o Rio Coura, fizeram a vida muito difícil aos Romanos.  Devido à sua resistência, estes cavaram um fosso bem fundo no Monte Medúlio, última reduto desses povos autóctones, para os fazer render pela fome.  No entanto, foi um projecto romano que falhou, pois continuaram a manter tão grande resistência que se suicidaram colectivamente, para se não entregarem na mão dos conquistadores.

 Acontece que a localização tem merecida algumas dúvidas, pois alguns historiadores querem ldentificá-lo com um monte junto ao Rio Minho, e Pinho Leal, com base no texto de Paulo Osódo, localiza-o na Serra d'Arga.  Historiadores galegos há que pretendem afirmar que o Monte Medúlio corresponderia ao Monte S.   Julião, perto de Tuy.

O topónimo Monte de Arga aparece num documento do século XI, onde o Monte de Arga era limite do Couto de Vilar de Mouros.

Mais tarde, no século XIII, as inquirições fazem referência ao mosteiro de S. João d'Arga.

 As raízes históricas desta região das Argas estão provadas por estes registos serem bastante antigos.  Foi no seu seio que em tempos imemoriais existiram diversos conventos, sobretudo da Ordem Beneditina, e o afamado Mosteiro Máximo, segundo alguns autores, fundado no séc. VII por Sisebuto I ou S. Frutuoso.

No séc.  XI, D. Femando de Leão refere-se a este mosteiro, que possuía um grande couto.

No séc.  XIV, existem novamente referências ao dito mosteiro e, no séc. XVI, um documento fez com que passasse a abadia secular, embora contra a vontade do Papa Sixto IV.

Foi por esta altura que os marqueses de Vila Real começaram a apresentar os abades deste mosteiro, até meados do séc.  XVII.

Salpicada esta Serra de eremitérios pobres e de anacoretas, servindo-se de buracos e covas naturais que existem nos montados, foi ainda e é berço de animais ferozes, como o lobo, e aves de rapina, como águia real, mochos …

Devida a estes e tantos outros factores. Trata-se de uma Serra lendária e é conhecida por Montanha Santa.

De facto, o mosteiro de S. João d'Arga, a capelinha de Stª Justa. a capela do Santo do Chocalho, a capela da Senhora da Serra, a capela de Stº  Antão são sinais evidentes de que o sagrado enalteceu durante séculos esta zona.

Os textos apresentados foram recolhidos em obras diversas