Por trilhos da Peneda - Altar de Fé

2000-05-20

 

A entrada do santuário fica voltada ao sul, apresentando a disposição que a  gravura abaixo representa. Segue um extenso escadório, e imediatamente as capelas na disposição que logo indicaremos, até se chegar ao adro, onde é principalmente o foco da grande romaria, quer os peregrinos se limitem a ficar ao ar livre debaixo dos velhos castanheiros, quer procurem abrigo nos quartéis que marginam todo o seu lado esquerdo, ou seja no velha quartel do Anjo da Guarda, sobre cuja fachada se vê em um nicho a imagem do custodio, ou seja nos quartéis novos, de largas varandas corridas, assentando sobre alpendres de granito. Á direita do adro corre uma longa fila de tendas com os seus balcões, onde os bufarinheiros da ocasião vendem aos romeiros os artigos do seu comércio.

Há de tudo. Mercearias, bugigangas, fazendas brancas, latoarias, bazares, loiça, uma enorme quermesse do povo e para o povo, que aí vem das serras próximas fazer o seu sortimento anual. As tabernas dos comes e bebes estendem-se em longa fila para além do edifício do mosteiro. Este levanta-se ao fundo do adro, assente sobre um novo escadório de quatro lances dobrados, cada um dos quais encimado, no centro por uma estatua, representando a primeira a Fé, e as outras, sucessivamente, a Esperança, a Caridade e a Gloria. A torre ergue-se ainda deste trono como um tocheiro gigantesco, e coroando como um docel todo este enorme só levantado pela piedade dó povo, vê-se uma fraga colossal sobranceira ao campanário, tendo ainda por sua vez um penedo de menores dimensões no ponto mais elevado, penedo em que se notam umas rágadas trabalhadas pela chuva, ou por qualquer outro elemento cósmico, mas nas quais o povo baseia a lenda da Senhora, que vinha disfarçada em pegureira estender aí as suas meadinhas para corar.

O primeiro vindo recebe uma chave do mordomo ou sacristão, e faz dali o seu domicilio; depois atrás deste vem outro, e ainda outro, ao qual seguem famílias inteiras, e grupos de romeiros, acumulando-se por tal forma nos quartéis, que as noites da romaria da Peneda são o que ha de mais prejudicial em matéria de higiene de alcovas para dormir, mas também o que há de mais pitoresco em ajuntamentos populares, e de menos escrúpulos de pudor na promiscuidade dos dois sexos.

Enquanto se fornecem os quartéis gratuitamente aos romeiros, as tendas arrendam-se por 3$000 réis aos negociantes e todo este dinheiro, assim como o das esmolas, que atinge contos de réis, serve para beneficiar o santuário, aumentando-o e aformoseando-o sucessivamente.

A casa da meza está anexa ao templo ou igreja, que é de uma só nave, com seis altares laterais, formando capelas dois deles. Para que tu, leitor, faças ideia do trono em que se eleva o templo da Peneda, basta dizer‑te, que da igreja ao adro descem 96 degraus; do adro ao pórtico dos Evangelistas 9; daí para baixo 120 até ao primeiro. largo de entrada, que conta seis capelas e tem ao centro a coluna do Anjo da Guarda, e mais 75 daí até á estrada.

As capelas, que são a admiração e pasmo dos romeiros, são ao todo 13 (treze) do lado direito, representativas da paixão do Cristo, e 7 (sete) um pouco maiores, do lado esquerdo, significando a infância de Jesus. Adivinhas, é claro, como serão respeitados os princípios que digam respeito á decoração das figuras; ha por lá o belo judeu com o seu chapéu de coco, e claque, mas o povo tem apenas a sua boa alma crédula para os ver, e é benévolo por isso com qualquer incorrecção artística. Entretanto deve dizer-se que a disposição dos grupos e escultura das figuras é um poucochinho superior aos antigos modelos do Bom Jesus.

A coluna do Anjo da Guarda, atesta em uma inscrição da sua base, que os administradores do santuário não deixaram o seu credito por mãos alheias. Assim, dizem os homens que, depois de restaurarem as ruínas do santuário; impetrarem a graça do jubileu sagrado, colocarem o argutíssimo sacramento no tabernáculo santo, ampliarem o antigo terreiro, e fundarem os magníficos edifícios, puseram esta pedra para monumento eterno do seu zelo, triunfo da religião e glória imortal da Santíssima Virgem, na era cristã de MDCCLXXXVII. »

Como situação, o santuário da Peneda é talvez o mais humilde em horizonte e o menos favorecido em paisagem de quantos conhecemos no país. Está enterrado numa estreita garganta e assombrado de serranias ásperas por todos os lados, apenas com um ligeiro desanuviado para o sul, que não vão ainda assim além duma légua, ao fim da qual se levanta o alto do Miradouro.

Na garganta passa o ribeiro da Peneda, que vão depois de reunido ao Fraguedo desaguar no Lima, em frente de Lindoso. As suas margens, tanto quanto o permite a insignificante extensão, encontram-se num ou noutro lugar adornadas por alguns canteiros de milho, ou por fetos raquíticos. Nos pendores da' serra, abrigados dos ventos - frigidos, crescem alguns carvalhos e azinheiros, que não chegam a atingir grande corpulência; de noite, algumas destas arvores mirradas e com o lenho a descoberto, dispersas por entre o arvoredo ainda novo, semelham fantásticos duendes dando á paisagem nocturna, triste por natureza, um encantador aspecto semi-trágico, para quem se recorda dos bons tempos do Noivado do Sepulcro.

 O MINHO PITTORESCO - JOSÉ AGUSRO VIEIRA

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