Nos Trilhos da Cachena
1999/03/20
Outrora foi Sistelo vigararia anexa de S. Salvador de Cabreiro, a próxima freguesia que vês acantonada nas crespas elevações da montanha, batida por um ar puríssimo, e fertilizada por o rio do seu nome Cabreiro gozando perfeitamente a fama de terra salubre, como atestam os seus vigorosos habitantes, que não raro ultrapassam os limites de uma senilidade octogenária.
Vai longe a noite da barbárie e entretanto a tradição ainda chega até nós como fio ténue de um ribeiro, que se tresmalhou pelas quebradas da serra.
Ouço distintamente a sua voz e um queixume brando de resignação e agonia, parece evolar-se dali, daquele poço de Portocales, que muje ao fundo da enorme laje escorregadiça, sítio onde as águas caídas do Outeiro Maior são atravessadas por uma tão singela como antiga ponte.
Ouço distintamente esse gemido a dor aflitiva de uma vida que se esvai, embora resignada, embora voluntária.
Aproximo-me da margem e recuo de horror. O corpo de um pobre velho mergulha ensanguentado nas águas sinistras do abismo. Seria um suicídio ? Não.
Tranquilamente, no alto, um homem impassível como a estátua da indiferença, espera a última vibração dessa agonia curta. É então o assassino?
É o parricida, é o filho.
O filho, imaculado como a túnica da lei, tranquilo e sem remorsos, consciente de haver cumprido um dever sagrado, imposto pelo código da tribo, pelo costume bárbaro, pela necessidade feroz que ordena o sacrifício de todo o velho inútil.
Madrugada ainda, dois homens caminham pelas veredas sombrias da montanha. Um é vigoroso e forte, o sangue cantábrico nas veias; adivinham-se por baixo dos seus vestidos de peles os músculos valentes como aço, o peito largo, o braço possante de guerreiro.
Caminha entretanto devagar. Uma oscilação do seu espírito? Quem o sabe!
Talvez que para não fatigar o companheiro, o pobre velho alquebrado de forças octogenário e trémulo, cego quase na noite da sua existência. Adivinhava-se que era pai e filho.
O novo, mais fatigado talvez da condescendência que da marcha que trazia, tomou então às costas o ancião. Desta vez caminhava seguro, apressadamente, o passo firme e cheio. Foi assim durante algum tempo.
- É longe ainda a jornada, meu filho?
- Para perto, respondeu bruscamente.
Um sorriso de melancolia indizível passou então nos lábios trémulos do velho e a sua voz, como um gemido antecipado, murmurou clara:
- Bem sei, meu filho, levas-me onde eu levei teu avô e onde teu filho te há-de trazer um dia.
Estas palavras foram como uma revelação da brutalidade da lei, como o alvor de uma aurora, que havia de chegar um dia. O filho não comentou o parricídio diz a lenda e o costume bárbaro cessou desde esse momento. Esse momento, sabes tu, chama-se civilização.
Abençoado sol.
Os textos apresentados foram recolhidos em obras diversas