Ao Encontro da Neve - Minas do Carris

1999-02-20

 

ARQUEOLOGIA NO PARQUE NACIONAL DA PENEDA-GERÊS

1. INTRODUÇÃO.

Um olhar sobre a cartografia dos monumentos do passado registados até hoje na área do Parque Nacional, permite de imediato perceber que os principais vales fluviais, em especial os dos rios Lima, Homem e Cávado, polarizaram desde muito cedo os principais núcleos de povoamento, pelo menos desde os últimos tempos pré-históricos.

No entanto, até finais da década de 70, os principais monumentos histórico-arqueológicos conhecidos em toda esta vasta região, eram aqueles que, pela sua monumentalidade, apareciam desde há muito referenciados, em particular a partir dos trabalhos pioneiros de Tude de Sousa sobre a serra do Gerês, desde finais do século XIX, e muito especialmente de Félix Alves Pereira sobre as serras do Soajo e Peneda. Com a criação do Parque Nacional da Peneda-Gerês em 1971 e, muito em particular, com a dinamização de um Departamento de Arqueologia a partir de 1979, foram promovidos os primeiros inventários realizados na sequência de prospecções sistemáticas das zonas ribeirinhas, mas também das zonas altas das serras.

Gradualmente reconhecida a diversidade e riqueza arqueológica do território do PNPG, foi possível estabelecer um esboço das principais etapas do povoamento desta área montanhosa, complementando-se desta forma o próprio Ordenamento do Parque, então tipificado num zonamento de Parque e Pré-Parque, conceitos justificando respectivamente uma menor ou nula intervenção humana sobre as regiões naturais, ou uma maior intervenção e interacção do homem sobre a natureza.

Com efeito, a arqueologia veio gradualmente demonstrando ter o homem ocupado, embora não o "domesticando" na sua totalidade, grande parte dos cerca de 72.000 hectares que constituem o território do único Parque Nacional de Portugal, pelo menos desde o Neolítico, ou seja, durante as últimas etapas da pré-história recente.


2. SÍNTESE DA EVOLUÇÃO DO POVOAMENTO.
BASES ARQUEOLÓGICAS.

Na área abrangida pelo PNPG não foram até ao momento encontrados quaisquer materiais ou habitats que evidenciem a passagem do homem paleolítico pela região. No entanto, não podemos deixar de referir os achados já antigos, muito perto do território do PNPG, de instrumentos líticos atribuíveis "sensu latu" ao Paleolítico, nomeadamente de várias quartzitos lascadas encontradas nos terraços quaternários da margem esquerda do rio Vez, ou ainda do biface quartzítico da Chã de Pedrelo, na margem direita do Lima, perto de Ermelo.

Também há poucos anos foram identificados alguns seixos talhados de morfologia paleolítica, muito rolados, nos terraços do rio de Mouro, muito perto do parque de campismo de Lamas de Mouro, já em território do PNPG.

Infelizmente, tanto uns como outros são achados de superfície, sem outro contexto arqueológico que não a evidência da sua própria morfologia. No entanto, a confirmar-se a tipologia paleolítica deste último achado, serão os primeiros vestígios de um passado paleolítico nas franjas do PNPG, território que, sabemo-lo hoje, foi caracterizado (e moldado) pela presença, pelo menos durante a glaciação do Würm, por línguas glaciares de baixa altitude.

Sinteticamente e tendo em conta o tipo de monumentos e vestígios do passado histórico até hoje identificados no território do PNPG, podemos considerar as principais etapas do povoamento como polarizadas ao redor de 3 grandes fases de domínio e ocupação efectiva da montanha:

a) A primeira marca o início da fixação do homem nas terras montanhosas do PNPG e é caracterizada pela presença de vastas necrópoles megalíticas, de que merecem destaque, pela grande densidade de monumentos, a do planalto de Castro Laboreiro e a do Vale da Coelheira e Chã de Cabanos (Britelo - Mosteirô), na serra Amarela, a primeira localizada a uma altitude entre os 1.100 e os 1.300 metros, e a segunda entre os 300 e os 700 metros. Embora com menor número de "tumuli", destaquem-se ainda a necrópole megalítica do Mezio (Soajo e Cabana Maior), na serra do Soajo, com 16 monumentos (um dos quais destruído) situados entre os 620 e os 700 metros, e a das Lamas de Vez, na serra da Peneda, com 6 monumentos agrupados na chã de Entre-as- Motas, na Seida, e com 1 isolado nas nascentes do Vez, ficando o conjunto já a cerca de 1.200 metros de altitude. Há ainda registo de outros conjuntos de monumentos megalíticos dispersos pela serra Amarela (Porto Chão, Chã de Arcas...) e no planalto da Mourela, entre os mais significativos.

Estas necrópoles, embora um pouco dispersas pelo território do PNPG, procuram preferencialmente as chãs de altitude, e têm evidentes implicações no ordenamento territorial pré-histórico. Com efeito, a sua implantação em (ou entre) portelas e em amplas chãs, criando linhas de visualização previamente estudadas entre mamoas, algumas até evidenciadas pela presença sobre os monumentos de pedras de quartzo leitoso facilitando a sua leitura na paisagem, são indícios suficientes para que, para além de serem consideradas como o "território dos mortos", possam igualmente ser tidas em conta como ordenadoras do "território dos vivos".

Os principais monumentos de cada uma das grandes necrópoles, como, por exemplo, a Mota Grande e a Mamoa 2 da Portela do Pau, no planalto de Castro Laboreiro, ou o dólmen da Lapa da Moura, em Chã de Cabanos (Britelo), para além de adquirirem uma monumentalidade que os faz destacar no conjunto dos complexos arqueológicos em que se integram, com câmaras funerárias de planta poligonal e corredor, eram ainda artisticamente decorados com gravuras e pinturas com uma gramática figurativa de feição geométrico- simbólica e abstracta (meandros e linhas quebradas, círculos concêntricos, idoliformes, etc.) indícios de uma forte religiosidade ligada ao fenómeno da morte.

Embora em níveis diferentes, releva no entanto das mesmas preocupações de religiosidade a criação dos primeiros santuários rupestres aqui identificados, de que se destaca o da Bouça do Colado (Parada, Lindoso), na serra Amarela, um complexo inscultórico de grande qualidade, com uma cronologia do Calcolítico ou do Bronze antigo, tipologicamente enquadrado no grupo I da "Arte do NW". Dispersas pela mesma serra, há ainda outras rochas gravadas, quer com o mesmo tipo de gramática figurativa da Bouça do Colado, como em alguns afloramentos isolados de Porto Chão (Lindoso), quer com figurações do grupo II da "Arte do NW", como nas franjas do Planalto de Castro Laboreiro (Rodeiro), ou na Chã da Rapada (Britelo) e em várias rochas dispersas por entre os monumentos da necrópole megalítica do Vale da Coelheira e Chã de Cabanos. Particularmente importante para o estudo da estatuária primitiva foi a descoberta da estátua-menir da Ermida, na serra Amarela, datável do 2º milénio a. C., constituindo a mais antiga escultura antropomórfica conhecida no território do PNPG. Ricamente decorada no anverso, foi talhada num único bloco granítico afeiçoado antropomorficamente e representa uma figura feminina. Está actualmente exposta no Núcleo Museológico da Ermida.

Caracterizada pela primeira ocupação humana efectiva das terras altas, onde são erguidas as necrópoles neolíticas e calcolíticas ao longo dos 4º e 3º milénios antes de Cristo (as mais antigas datações absolutas por radiocarbono de dólmens em escavação no planalto de Castro Laboreiro são ainda do 4º milénio a.C.), é natural que também gradualmente as zonas ribeirinhas sofram os impactos dos primeiros habitats humanos sedentarizados, tornando-se esta ocupação mais constante ao longo da Idade do Ferro com o desenvolvimento dos primeiros castros (Castros de Parada, Cidadelhe, Ermida, Outeiro, Cristelo, Tourém, etc.). É também possível que os locais de implantação de alguns destes castros, tenham já tido ocupações anteriores, nomeadamente desde o Bronze final. É um problema arqueologicamente ainda em aberto, e que terá a ver com a mutação pontualizada das condições de habitabilidade e de insegurança a partir do Bronze final.

b) A conquista romana assinala um segundo e mais forte impacto da ocupação humana neste território. Rasgam-se então mais sólidas vias que atravessam as montanhas, riscam-se os primeiros cadastros, a exploração dos recursos mineiros intensifica-se e acentua-se a primeira uniformização política da região sob um domínio imperial. Todo este território é, a partir do século I, integrado na província romana da Calaecia, com capital em Bracara Augusta (actual Braga).

É então (a partir de finais do século I d.C.) que é construída a estrada da Geira, na serra do Gerês, um troço da via XVIII do Itinerário de Antonino, ligando Bracara Augusta a Asturica Augusta (actual Astorga), o mais monumental complexo arqueológico romano localizado no PNPG. Parcialmente escavada e restaurada em 1992, só nas milhas actualmente integradas no PNPG (milhas XXVII a XXXIV) foram até agora identificados 86 miliários (entre exemplares inteiros e fragmentados), muitos dos quais epigrafados com inscrições datáveis entre o final do século I e o século IV d.C. No seu todo, constituem o mais monumental conjunto de miliários até agora identificados em todo o mundo romano. Aqui foi também descoberta e escavada uma mutatio (estação de muda) junto da milha XXX, um possível templo romano no Adro de S. João (S. João do Campo), ainda só parcialmente escavado, bem como várias pedreiras de onde sairam os silhares para as pontes romanas de S. Miguel e da ribeira do Forno, bem como outras pedreiras utilizadas no fabrico de miliários, elementos preciosos para o estudo da tecnologia local romana. A importância de todos estes vestígios, bem enquadrados ainda no interior da Mata de Albergaria (classificada como Reserva Biogenética pelo Conselho da Europa), levaram o PNPG a promover a sua candidatura a Património da Humanidade, processo que arrancou já no ano de 1996.

Há, no entanto, outras memórias já identificadas da conquista romana deste território, como sejam os vestígios dispersos da romanização na área de Lindoso. Aqui merecem destaque a ara dedicada a Hércules actualmente em exposição no castelo de Lindoso, um hipotético fanum na margem esquerda do Cabril e talvez os restos da via romana do vale do Lima, cujos vestígios mais significativos estão actualmente cobertos pelas águas da barragem do Alto Lindoso, via provavelmente apoiada pelo povoado romano do Cabeço do Leijó, onde escavações recentes vieram enriquecer o já anterior achado de algumas pedras almofadadas e dos restos de uma inscrição, etc.

Também em Bilhares (Ermida), ainda na serra Amarela, foram identificados os alicerces de um grande edifício romano, sobreposto pelas casas pastoris da actual branda, algumas reutilizando pedras almofadadas de boa factura, que dão conta da importância do edifício para o qual foram talhadas, isto perto do local onde já no século passado fora descoberta a conhecida Pedra dos Namorados, uma escultura de época romana, actualmente em exposição no Núcleo Museológico da Ermida. Todos estes achados acentuam a importância da ocupação romana da serra Amarela, enquadrada entre as vias romanas da Geira, no vale do rio Homem, e a do vale do Lima, esta ainda em parte por sistematizar arquelogicamente em território português. Uma prospecção mais fina desta serra identificará certamente novas estações romanas.

c) A herança dos conquistadores romanos perdura pelos séculos seguintes ( na língua, nos costumes, na tecnologia...). A morfologia do território pouco se altera com a criação e fixação das comunidades medievais, normalmente ao redor das primeiras igrejas e mosteiros, com um tipo de economia essencialmente pastoril e de quase autosubsistência.

Permanece ainda em aberto a identificação de alguns povoados, presumivelmente alti-medievais, como o dos Campinhos de Vila Nova, no morro do Castelo de Castro Laboreiro (a SW), ou o da Torre Grande, no vale do Cabril, junto ao Lindoso, ambos talvez ligados a um tipo de povoamento muito recatado e eventualmente dos tempos da Reconquista, um período ainda muito pouco documentado arqueologicamente. Com efeito, quer o tipo de implantação apoiado em fortes defesas naturais, quer a morfologia das estruturas visíveis a olho nu aparentemente pós-romanas, quer ainda o tipo de materiais (tegulas) que em ambos aparece, são indícios que apontam fortemente para a sua datação como povoados alti-medievais.

Não será já este o caso do Juríz (Pitões das Júnias), um povoado mais tardio implantado em plena serra do Gerês, defendido por uma fortificação do tipo torre "roqueira" da qual restam ainda as marcas abertas no granito para assentamento dos silhares no morro chamado do Castelo, cronologicamente talvez já dos séculos XII-XIII. Este magnífico povoado e seu "castelo", actualmente localizados em plena mata do Beredo, um carvalhal espontâneo que se desenvolveu após o abandono do aldeamento, talvez logo nos séculos XV-XVI, estariam talvez ligados ao Mosteiro de Santa Maria das Júnias, cuja fundação sabemos remontar pelo menos ao século XII.
Para além deste mosteiro, primeiro beneditino e depois cisterciense, há no território do PNPG outros restos românicos a atestarem a vitalidade do povoamento medieval pelo menos a partir do século XII. Recordemos os vestígios românicos bem evidentes na igreja de Tourém, com restos decorativos claramente do mesmo tipo dos de Santa Maria das Júnias (portal) e sarcófagos antropomórficos, que também aparecem junto à igreja do Soajo. Perto também da igreja do Lindoso, cuja morfologia românica foi infelizmente destruída pelo "restauro" de meados deste século, podem ainda ver-se algumas tampas de sarcófagos medievais com decoração em estola.

Como monumentos mais significativos das defesas medievais da região restam-nos os castelos de Castro Laboreiro, implantado num alto pedregoso e de dificílimo acesso, e o de Lindoso, este refeito no século XVII com um renque de muralhas do tipo Vauban e actualmente adaptado pelo PNPG a núcleo museológico e centro de interpretação da região.

Será a rápida difusão do milho-maíz (a famosa "revolução do milho" na terminologia de Orlando Ribeiro) a partir de finais do século XVI, que contribuirá para um maior disseminamento do povoamento, acentuando também gradualmente a fixação e alargamento das comunidades mais ribeirinhas. Será o momento em que se erguem e moldam a maior parte dos terraceamentos e se altera a morfologia das encostas criando-se as admiráveis paisagens de socalcos que têm perdurado até aos nossos dias.
Embora muito esquematicamente, parecem-nos ser estas as linhas de força dinâmicas ao redor das quais se polarizou o povoamento das regiões do PNPG e que a arqueologia tem confirmado.

António Martinho Baptista

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